“Um filósofo que formou todo o seu pensamento atendo-se aos temas fundamentais das ciências, que seguiu o mais exatamente possível a linha do racionalismo ativo, a linha do racionalismo crescente da ciência contemporânea, deve esquecer o seu saber, romper com todos os hábitos de pesquisas filosóficas, se quiser estudar os problemas propostos pela imaginação poética.” (Gaston Bachelard em A Poética do Espaço, 1957)

Assim Bachelard abandonou sua postura “diurna” e se entregou à nostalgia noturna do imaginário poético. E com este trecho eu comecei minha odisséia em busca de uma possível Metodologia Fenomenológica aplicada ao Design Gráfico, tema de meu projeto de pesquisa no Mestrado em Design. Se você for doido e estiver interessado, sinta-se à vontade para opinar e colaborar comigo (baixe AQUI a proposta projetual). É óbvio que Design não tem relação nenhuma com Fenomenologia (por enquanto), mas é grande a tentação de contrariar o estigma “informacional” da academia. Assim, conto com o auxílio de meu amigo Ivan Mizanzuk (que gentilmente me forneceu o livro da citação acima), com algumas anotações rápidas da grandiosa Glória Kirinus e, sobretudo, com a orientação da minha querida professora Stephania Padovani. Não faço idéia de onde isso vai chegar, só espero contribuir de alguma forma em um cenário que cada vez mais perde sua utilidade justamente por restringir-se à ela. Não pretendo seguir a tendência de objetivar aquilo que é apenas o próprio resultado, mas sim valorizar tudo aquilo que há por detrás dele. Enfim, aos poucos vou explicando melhor, nos próximos textos, como andam minhas pesquisas.

parents

A ilustração acima, tirada deste livro, é só para lembrar que a Editora Parêntesis está mais ativa do que nunca neste ano. Nosso primeiro trabalho concluído foi o site da Editora Caderno Listrado, dirigida por Daniel Barbosa que, por sinal, tem sido uma ótima fonte para contatos e, sobretudo, um grande amigo. Graças a ele, consegui fazer a capa do próximo livro da Assionara Souza e tive a oportunidade de participar de um projeto editorial pretensioso, a Revista PANO, envolvendo pessoas a quem dedico muito respeito e admiração: Carlito Azevedo, Liber Paz, Lourenço Mutarelli, Maristela Ono, Paulo Reis, Vicente Pessôa, entre alguns outros. Por enquanto é só isso que posso dizer, mas se tudo der certo, tenha certeza que estaremos na banca mais próxima. Dentre as nossas outras novidades editoriais, em parceria com a Caderno Listrado, posso já adiantar o lançamento do livro “Malditos Designers” de Rômulo e, posteriormente, do livro “Em busca do paraíso perdido” do sociólogo Ângelo José da Silva.

beccari_ideafixa

" Elige un trabajo que te guste y no tendrás que trabajar ni um día en tu vida" – eis uma frase de Confucio, recebida em um email da Glória Kirinus, que por mais clichê que possa parecer tem feito muito sentido para mim ultimamente. A ilustração acima retrata literalmente isso: colagens minhas que foram publicadas na edição #15 da revista IdeaFixa: “o impossível”. Mas o que talvez represente melhor meu entusiasmo é a oportunidade que consegui em ministrar algumas aulas esporádicas na disciplina “Linguagem Gráfica”, em auxílio ao professor José Marconi (agradeço pelo conviete e pela confiança), dentro da graduação em Design Gráfico na UFPR. Como é de se notar, esta é uma das raras fases da minha vida em que eu me reconheço feliz por um instante. E só posso esperar que esse instante perdure. Não sei bem pra onde estou caminhando atualmente, mas acho que as coisas estão mudando pra melhor, cada vez melhor. Abaixo, deixo um pequeno ensaio que tive que fazer ontem. Por enquanto é isso, nos vemos em breve.

“Um viés fenomenológico sobre a colaboração e o design enquanto processo”

Ensaio entregue à disciplina de Design Colaborativo | 07 de março de 2010

A concepção do termo “colaboração” me parece, em um sentido ontológico – isto é, com relação à sua natureza semântica em um contexto vigente –, inerente à postura marxista (especificamente a dialética marxista) ou a seus fragmentos remanescentes nas reflexões contemporâneas. Partindo-se da etimologia da palavra, nota-se o prefixo “co” – em conjunto – somado ao termo latim “labore” – trabalho, labuta – sugerindo a ação de se trabalhar em conjunto. O próprio pensador Karl Marx escreveu várias obras em colaboração com Friedrich Engels, aplicando a doutrina materialista ao método dialético, proveniente da filosofia de Hegel (não materialista, mas idealista). Essa dialética marxista, que se define pela ação de não mais pensar o mundo, mas transformá-lo, é um vestígio que se mostra, em uma análise preliminar, intrínseco ao que se entende por “colaborar” nos dias de hoje. Retomando a história, observa-se o mesmo fenômeno nas teorias críticas da Escola de Frankfurt. Trata-se de um grupo formado por filósofos e cientistas sociais que lecionavam no Instituto de Pesquisa Social de Frankfurt (Alemanha), fundado em 1929. Amparando-se no pensamento de Marx, este grupo procurou sintetizar suas reflexões sociais em práticas colaborativas, como no ensaio “Dialética do Esclarecimento” de Adorno e Horkheimer.

Longe de querer postular argumentos esquerdistas – argumentos aos quais, diga-se de passagem, considero demasiado ultrapassados –, procuro aqui estabelecer um panorama prospectivo a partir de uma retrospecção limitada não só ao contexto contemporâneo, mas sobretudo ao que me aparece como dado imediato ou, em outras palavras, fenomenológico. Coloco-me, deste modo, na posição de um possível leitor, pressupondo uma familiaridade prévia com a área de Design, que se depara com este ensaio como quem questiona suas próprias conjecturas empíricas. Voltando-se ao Design, não vejo outro modo de pensar “processo” senão como o resultado de um método. Entretanto, no que se refere às metodologias de Design, observo um constante compromisso racionalista com a funcionalidade e a eficácia. Não tenho conhecimento de nenhuma postura metodológica que não seja positivista e/ou pragmatista nessa área, levando-se em conta sua tradição acadêmica desde a Bauhaus. Tanto o modelo humanista quanto o norte-americano, assim como a doutrina marxista, me parecem fora de contexto por razões que aqui não caberiam descrever. Portanto, tomo a liberdade de destacar um episódio da História da Arte que (ainda) não possui ligação direta com a área do Design.

Alguns artistas se juntaram em Paris no início dos anos 1920 para configurar o que se chamaria, pouco tempo depois, de movimento Surrealista. Liderados por André Breton, os artistas compartilhavam as idéias de Freud e, não por acaso, de Marx (ver “A Estrela da Manhã: Surrealismo e Marxismo” de Michael Lowy). Fato é que várias experiências colaborativas de criação marcaram a paisagem surrealista, a começar com os “Les champs magnétiques”, textos elaborados em conjunto por André Breton e Phillipe Soupault em 1919. Apoiando-se nas técnicas freudianas de “associação livre” e “pensamento falado”, e com o intuito de descobrir fontes não-racionais de inspiração para a criatividade, surgia o método da “Escrita Automática”: procedimentos subjetivos que pretendiam atingir uma nova objetividade poética, realizados em sua maioria de maneira coletiva. Os surrealistas tentaram estender essa prática à pintura e à escultura, evitando ao máximo qualquer intervenção por parte do senso-crítico consciente e valorizando experiências práticas e momentâneas.

Atendo-se restritamente à técnica de “Escritura Automática” dos Surrealistas, arrisco-me a compará-la com o método fenomenológico de Gaston Bachelard descrito em seu livro “A Poética do Espaço”: “a filosofia da poesia [...] deve reconhecer que o ato poético não tem passado, pelo menos um passado próximo ao longo do qual pudéssemos acompanhar suas preparação e seu advento” (BACHELARD, Gaston. 1988). Embora os pensamentos de Bachelard estejam mais próximos aos de Jung do que aos de Freud, o filósofo aproximou-se do Surrealismo ao ingressar na crítica literária na década de 1940. À parte disso, arrisco-me novamente a dizer que o processo criativo descrito por Bachelard depende de uma interação colaborativa, fugindo à causalidade e se manifestando na repercussão: “o poeta não me confere o passado de sua imagem, e no entanto ela se enraíza imediatamente em mim” (BACHELARD, Gaston. 1988).

Assim sendo, minhas considerações sobre “colaboração” e “design enquanto processo” inevitavelmente vão de encontro à intencionalidade de uma possível metodologia fenomenológica aplicada ao Design, proposta essa que compõe o escopo de meu projeto de pesquisa neste programa de Mestrado em Design. Embora ainda haja um abismo entre minhas pesquisas e os resultados esperados, desconfio que a concepção de “colaboração” e “processo” (especificamente criativo) distancia-se daquilo que propõe as premissas metodológicas do Design, mantendo-se ainda, contudo, em suas finalidades.

Referência: BACHELARD, Gaston. A Poética do Espaço. São Paulo: Martins Fontes, 1988.

por marcos beccari | , , edit post

0 Response to "devaneios de março"

Postar um comentário