*primeiro conto e primeira ilustração de 2010 (grafite, aquarela e colagem).
Voltemos àquela tarde de outono. Durante o verão de 2454, Curitiba não mais conhecia um dia sem chuva e eu trazia em meus olhos pálidos a apatia da loucura e, sob a pele alheia, o azedume de calçadas rachadas e de fios de vento que cortavam as pessoas feito estilete. O olhar de Sofia estava em todos os lugares. Tão bonita que eu tentava evitar, sem saber que ela também me via. E me evitava também. Eu só queria descansar, Sofia estava tão perdida quanto eu, o vento corria forte pelas ruas na mesma direção que caminhávamos juntos para o trabalho. Não que eu ainda me sentisse culpado, só não entendia como lidar com aquela presença, no mínimo, esquisita. O motivo era simples: ela estava morta e, ao que tudo indica, fui eu quem a matou.
Confessei o crime várias vezes à polícia, mas de tão falso que parecia ainda não me prenderam. Sofia já estava de partida, segurava levemente a minha mão pois não havia mais nenhuma outra sobre a qual se apoiar. Eu não devia ter dito que não tinha certeza, muito menos ela. O erro não foi meu, meus dedos apenas responderam ao seu olhar trêmulo e mofado. Depois do som metálico do disparo, baixei os olhos tentando registrar na memória aquele sorriso definitivo e eterno. Mas o que ficou mesmo foi o cheiro de sangue podre em minhas narinas. Por isso passei a caminhar mais na rua, o vento disfarçava o cheiro. O problema era o olhar de Sofia, em pontos estratégicos, especificamente naquela tarde de outono. Tentando evitá-lo, levantei a cabeça e contemplei o céu: a lua quase se encostava ao sol, Júpiter e Saturno estavam demasiado próximos. Não parecia muito agradável e, sem compreender o que se passava, permaneci imóvel como se estivesse pregado no horizonte minimalista daquela avenida.
Foi então que eu notei o corpo de Sofia visível apenas da cintura para cima, debruçada em uma janela lá em cima, como uma marionete. O cheiro de pele morta era mais forte que a ventania que, por sua vez, abafava os gritos de Sofia. A paisagem de baixo para cima me causava vertigem, eu não conseguia sair do lugar e senti minha pele se soltando em carne viva. Realmente ventava muito. Realmente eu estava pregado no chão. Meus ossos esmigalharam-se sob o meu próprio peso. Respirei fundo e senti milhares de agulhas perfurando meus pulmões. De repente um carro tentou frear atrás de mim, sem êxito.
Não deu tempo de ver os olhos dela. Não deu tempo de ela me dizer o que queria. Mas minhas lembranças eram tantas que imediatamente entendi e aceitei, ao passo que Sofia desaparecia da janela no exato instante em que o rapaz que dirigia segurou minha mão. Sorri pela última vez e sussurrei para ele, enquanto eu ainda tinha língua: cuide de quem você ama, que um dia acaba. Cuide de quem você ama, que um dia ela parte. Cuide de quem você ama, que um dia esse dia chega. Perdoar é divino e Sofia é uma das poucas deusas que ainda caminham sobre a terra.
destino é quando o peso irrisório do acaso é facilmente carregado pelo vento.
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