Uma realidade já estabelecida, cujo objetivo ingênuo parece ter sido fixado de uma vez para sempre – eu –, encontrando-se subitamente na presença de outra muito distante e não menos absurda realidade – você – num contexto onde ambos se sentem fora do seu lugar – aqui –, irá por este simples fato escapar do seu objetivo ingênuo e perder a sua identidade. Diga adeus ao seu emprego, sua formação, seus compromissos, seus amigos e inimigos. Somos apenas eu e você agora. Não exatamente você, mas aquela menina linda ali do lado. Não exatamente eu, mas quem você quiser que eu seja. Não há uma terceira pessoa, exceto aquele ser repugnante a quem você dedicou todos os seus sentimentos e que está morto desde ontem. Você sabe disso desde hoje, estou te contando agora. Eu sei que você não vai com a minha cara. O que você não sabe é que eu pratico crimes desde a infância e passei boa parte da vida preso. Agora que você já sabe, vai me denunciar à polícia.
Contudo, posso adiantar que não restam provas que ainda não foram julgadas e condenadas no tribunal. Apenas o meu olhar obscuro que você sentirá toda noite antes de dormir e a possibilidade iminente de que não acordará no dia seguinte. À parte disso, saiba que sou um sujeito exemplar. Trabalhador honesto, católico fiel e, provavelmente, um ótimo pai. Então entenda que o verdadeiro sentido da tua vida desfaleceu quando você traiu o defunto ao se apaixonar por mim. Ainda não, mas daqui a pouco. Logo após eu te dizer que eu apanhava muito nas detenções. E que eu fui abusado sexualmente e que, no almoço, me alimentava apenas com o ódio que eu sentia do ser humano. Pronto, agora você pode confessar que me ama. Devido ao desvio através do qual é relativo, irá passar da falsidade absoluta para um novo absoluto que é verdadeiro e poético: eu e você faremos amor aqui e agora. Uma completa transmutação seguida de um puro ato de amor são necessariamente produzidos sempre que os fatos fornecidos proporcionem condições contraditórias e nada favoráveis.
Você diz que é por vingança, mas eu sei que o medo e o perigo te excitam. Por isso você gostava tanto daquele imbecil. Só entenda que eu não suporto assassinas. Sei que você ainda não é – saiba que eu também não –, mas não adianta insistir, jamais serei capaz de sanar o teu imenso desejo de morrer agora. Se eu te amasse, talvez. O que importa é que quando o mais provável deixa de existir, o improvável entra em cena: você deixará de ser o que de fato é para assumir aquilo que decidiu se tornar. Matará muita gente, mas se lembrará apenas de cinco pessoas, as quais serão assassinadas em um único dia – seus pais, sua irmã, sua melhor amiga e o seu futuro filho. Antes do suicídio, tentará fugir do país, mudará seu nome e transará com muitos outros criminosos, até ser descoberta e conseqüentemente incriminada. Sua frieza será assustadora. Mas não esqueça que ainda te restam dezesseis anos de vida. Por ora, deixarei alguns conselhos em troca da fornicação de agora pouco.
Aprenda a sorrir de graça e ninguém desconfiará de você. Comece a caminhar mais na rua, o melhor dos esconderijos. Olhe sempre para o céu, mesmo em dias de chuva, como se fosse a última vez. Não procure por novos amigos, eles é que vão encontrar você. Os mais idiotas são sempre os melhores. Faça sexo mesmo quando não estiver com vontade, pois nas poucas ocasiões que ficará excitada dificilmente haverá alguém disposto. Escolha uma igreja bonita e cheia de estátuas e comece a freqüentar as missas de domingo. Encare os adolescentes como rapazes bons de cama e cheios de energia, não como criaturas pervertidas e imaturas que despejam esperma em qualquer canto. Dê atenção aos idosos sem precisar respirar aquele hálito podre. Pare de pensar em fugir antes de no mínimo saber como e para onde. Acredite na solidariedade e no amor ao próximo, segurando a respiração por trinta segundos antes de decidir matar certas pessoas. Leia os romances de Kundera para que não seja tarde demais. Escute a música de Erik Satie, de preferência em Paris, e não cometa o erro de ler filosofia - contente-se com a vida que ainda te resta. Pare de beber, pare de fumar e durma mais cedo para acordar mais cedo. Coma mais alface, dizem que faz bem para o intestino. Quando receber um elogio, evite pensamentos absurdos e agradeça, simplesmente. Nunca ria de si mesma e quando achar algo engraçado, guarde o riso para si. Marque uma consulta para ver o que você tem na garganta, que te faz falar tão alto. Compre um óculos escuro, mesmo que seja só para ficar olhando a tarde passar. Pense cuidadosamente em um novo nome, quanto antes melhor e, por fim, o mais importante: não olhe pela janela se você ainda não sabe enxergar o que há por detrás dela.
Agora espere só mais um minuto antes de dizer até logo e nunca mais olhar para trás. Compreenda, nesse meio-tempo, que o energúmeno do seu marido morreu por tua causa, tentando negociar comigo o dinheiro que você ainda me deve. Não fui eu quem o matou, não sou assassino, mas heroína custa caro e é você quem deveria estar esticada no chão. Não se preocupe, não vou mais te procurar. Só te peço para que tente controlar a raiva quando decidir matar o nosso futuro filho. E antes disso acontecer, ame-o com todo o coração que uma mulher entrega a um homem quando ele nasce.
* conto escrito para o pretérito presente (tentando ressucitá-lo) e ilustração feita com grafite e colagem digital.
para ler, mastigar e digerir.
incrível!