Parafraseando meu amigo Vicente Pessôa (em Resposta a mim mesmo), este texto pode ser dirigido a muitas pessoas. A princípio, porém, trata-se de um esclarecimento a mim mesmo, uma satisfação que dou às pessoas que me escutam e àquelas que realmente significam algo para mim. Antes de mais nada, parte-se do princípio de que, em um contexto onde o excesso de informação já faz parte da paisagem, a verdade é algo inexistente. Ninguém é capaz de entendê-la, quiçá repassá-la. As pessoas conseguem mentir sem se dar conta de, apenas recebem informações e as repassam conforme uma reles interpretação. Por isso, ainda me apropriando do discurso do Vicente, decidi há um certo tempo ser o mais sincero possível, ao menos comigo mesmo, e isso inclui não deixar que a ignorância seja louvada, quando puder impedí-la.
[um de meus primeiros desenhos, feito em 1999]
Fato é que eu vivo me expondo aqui e ali e em alguns outros lugares, o que me impede de guardar segredos. Sou formado em design gráfico, faço mestrado na área e trabalho com ilustração na maior parte do tempo. Quando eu fiz meu primeiro curso de desenho, aos 12 anos em São Paulo, aprendi que a melhor maneira de aprender a desenhar é copiando outros desenhos. Depois de alguns meses de curso, com alguns macetes que o professor me ensinava, consegui fazer meus próprios desenhos, deixando aos poucos as referências de lado. Em paralelo a isso, meu pai fazia questão de me ensinar tudo relacionado à propriedade intelectual – ele trabalhava com isso na receita federal. Logo quando entrei na faculdade, comecei a estudar bastante (por conta própria) história da arte, filosofia e literatura. O resultado disso tudo foi a idéia de um projeto chamado “literatura emergencial”, em 2007.
Era algo que me parecia pretensioso, de certo modo anarquista e contemporâneo, que propunha a apropriação pela ressignificação. Embora isso já tenha sido feito na área de artes visuais (pop art, dadaísmo, street-art, etc), na literatura era uma idéia que nunca fora arriscada (até onde eu saiba). Na prática, tratava-se de uma proposta de juntar partes de obras já existentes para construir uma nova obra, um tipo de “hipertexto manipulado” (minha principal inspiração foi “Arte e Mídia: Aproximações e Distinções” de Arlindo Machado). Como forma de exercício, em 2007 comecei recortando textos de pessoas que, até então, não identificavam seus verdadeiros nomes na internet. Ingenuamente ou não, eu publicava tais experimentos em sites pessoais sem pedir autorização aos autores e não indicava seus respectivos créditos. Evidentemente, tais escritores logo se manifestaram contra minhas atitudes. Embora fossem poucas as ocasiões que me permitiram um diálogo – eu só o fazia com aqueles que entravam diretamente em contato comigo –, sinceramente eu declaro desde já: copiei de fato, não tiro a razão deles, assumo meus atos sempre que necessário e estarei sempre disposto a tirar os textos do ar ou atribuir os devidos créditos caso isso me seja requisitado.
Longe de querer me justificar, vou contar o resto da história. Tentei levar este projeto adiante e no final de 2008 consegui incluí-lo no programa BITEC (financiado pelo IEL e CNPq), na forma de um projeto de pesquisa intitulado Arte Emergencial. Neste ponto, eu já tinha uma idéia mais concreta sobre minhas pretensões e meus limites, algo que partia do contexto da própria internet: você escreve, filma ou elabora uma imagem e as pessoas acrescentam comentários que podem contribuir ou piorar o seu trabalho - desde propagandas automáticas de dieta ou pornografia, gente que diz o que pensa e assina como “anônimo”, até tentativas inusitadas de plágio/cópia sob uma desculpa como a minha. Eu realmente acreditava nessa idéia, considerava-a inovadora, como uma postura vanguardista e corajosa, planejando diversos tipos de desdobramentos (veja o artigo abaixo).
Porém, no meio do projeto eu aluguei, por sugestão de um professor, o filme “A Onda” (Die Welle). É uma versão alemã feita em 2008 do filme americano “The Wave” (1981) que explora a questão da responsabilidade envolvida em atitudes puramente ideológicas. É curioso como um filme pode influenciar, de modo tão imediato, a vida das pessoas. Parafraseando agora o meu professor Liber, o filme me ajudou finalmente a reconhecer um fato demasiado simples, mas que até então permanecia opaco para mim: tudo o que dizemos e escrevemos, isto é, todo processo de comunicação, será interpretado por alguém e sempre haverá consequências. Algumas vezes irrelevantes, outras divertidas, outras desastrosas.
Desde então, digo sinceramente que me arrependi disso e que eu não tenho mais feito isso há um bom tempo. Não espero que os escritores plageados, ou qualquer um que seja, entendam tudo isso, mas acho necessário dizer que, de um jeito ou de outro, eles contribuíram muito com minhas poucas habilidades na escrita, tal qual os ilustradores que eu copiava aos 12 anos de idade, em minhas habilidades no desenho. Assim, peço desculpas e lhes agradeço ao mesmo tempo, sabendo que talvez eu tenha demorado muito para tê-lo feito. No final, vejo que essa história começou por ser pequena, mas logo cresceu rapidamente, até se tornar um longo registro de pequenos equívocos e acertos de duvidosa importância. Assim pensei antes de apagá-la por completo ou escrever este texto. O que me levou à segunda opção foi justamente a minha despreocupação inicial, antes de tudo isso, que hoje eu reconheço nitidamente como uma tentativa imatura de retocar a maquiagem, corrigir os erros, reorganizar a ordem dos fatos. Deste modo, penso que qualquer acontecimento corre o risco de banalizar-se, mas como um fato cujo próprio conteúdo é importante, sua existência atesta uma virtualidade permanente e que não pode ser passada em branco.
mais sobre Arte Emergencial: projeto arte emergencial | manifesto | frases emergenciais | expectativas | estudo sobre Amálio Pinheiro | estudo sobre Arlindo Machado | Copyleft vs Copyright | estudo sobre a Filosofia da Arte | breve histórico da Arte Ocidental | Artigo “Blogs: o reflexo das incertezas coletivas”
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