Em todo primeiro dia do ano é inevitável a reflexão sobre quem eu sou hoje, quem eu poderia ter sido e quem eu gostaria de ser. Este ano não foi diferente, mas com a agradável companhia de um amigo relativamente recente. Conheci Ivan no final de 2008 em uma palestra do Mutarelli e, de lá pra cá, muitas coisas aconteceram conosco, cruzando nossos caminhos algumas vezes. É engraçado como conhecemos os amigos. Quase sempre é muito improvável. Ivan era um jovem e talentoso professor e eu era o aluno rebelde. Com o tempo, passei a admirá-lo cada vez mais na medida em que ele me ensinava com exímia habilidade e assim compartilhávamos algumas idéias. O que realmente importa nessa história foi quando eu consegui enxergar que não é a verdade que deveria ser ensinada, mas sim as virtudes. Professores que ensinam a verdade são substituíveis por qualquer um que também a conheça. Por outro lado, ensinar alguém a gostar daquilo que se pretende conhecer é aquilo que torna um professor único.
Quando eu entrei na faculdade, muito tempo se passou em apenas alguns anos, algo que acabou fazendo de 2009 um ano demasiado efêmero. Não sei exatamente o porquê, mas tenho a impressão de que o ano durou quase um mês e desconfio que não seja apenas eu que senti isso. Por que as pessoas comemoram tanto um ano que ainda não aconteceu? Pra mim faz mais sentido dizer feliz ano velho do que feliz ano novo. No entanto, parece que o ano passado realmente passou despercebido. Vivenciei ocasiões muito interessantes na faculdade que transformaram minha noção de tempo. Acho que a coisa mais importante que há na faculdade é o processo que eu chamo de “cair a ficha”. Você aprende que um diploma é praticamente inútil, que qualquer tipo de relacionamento possui um prazo de validade, que as verdadeiras conquistas dependem apenas de você, que um dia seus pais não estarão mais ali e que quando este dia chegar será apenas você contra o mundo, tentando pelo menos se tornar algo parecido com aquilo que seus pais foram. E assim o tempo se torna mais traiçoeiro, escorregando entre os nossos dedos. Neste ponto, questiono-me se é o medo ou a ambição o que move o homem. No início da faculdade, tive a oportunidade de conhecer algumas pessoas que caminharam comigo por este trajeto. Dos que ainda permanecem bem próximos, pelo menos até o ano passado, estão meus amigos Rafael e Matheus. Passamos por uma fascinante tempestade criativa durante estes anos, uma revolta explícita contra a postura dos tais “filisteus”, “standard people”, “statu quo”. Fomos maus alunos e mesmo assim tínhamos as melhores notas. Embora sejam dias que hoje deveriam ser esquecidos, foram inesquecíveis enquanto duraram. Esperanças, ideologias, receios… tentativas de enxergar o acaso como um destino. E hoje uma amizade construída justamente sobre o contraste de nossas ambições: minha aversão à vulgaridade contra a aversão deles à academia. A única certeza que perdura é que eu me tornei a soma de cada um deles. Eu não abriria mão de nenhum daqueles dias vividos e sinceramente espero que haja muitos outros pela frente.
Então eu penso no tempo que me tomou estes vinte e dois anos, as ocupações pessoais, profissionais e informais, as preocupações cotidianas e a falta de sono. Não sei mais se quero saber de tudo aquilo que eu queria tanto conhecer um dia. Analiso minha vida e começo a pensar que ela não é tão vasta para todos os meus anseios. Lembro-me que minha principal motivação sempre foi a arte. Hoje eu penso que a arte, em seu sentido mais amplo, deve ser vista como algo secundário, que alimenta a vida, sem atrapalhá-la. Creio que todos devem praticá-la enquanto não se está preparado para coisas mais importantes. No fim são apenas reminiscências, jamais obras definitivas. Quanto às “coisas mais importantes”, relativas à desonestidade e ao que existe de não digno, ainda acredito que não é preciso aprendê-las, mas tê-las apreendidas. Não é preciso, porém, deixar a arte de lado. O conformismo de minhas palavras é apenas aparente na medida em que há muita arte no cotidiano a ser contemplada por olhos sensíveis: histórias engraçadas, histórias tristes, edificantes, distraídas.
Embora não haja mais o tal encanto da juventude, creio em um certo encanto da vida adulta. Ultimamente tenho tentado investigar melhor acerca desta profunda mudança que estou vivendo. Cada instante mostra-me a infinidade de meu passado e, ao mesmo tempo, a fragilidade de meu presente. Por que eu parei de beber e quando eu comecei a fumar tanto? Não tenho certeza. Por que eu parei de escrever e desenhar quando eu mais precisava disso? Já não sei exatamente qual é o meu objetivo. Entretanto, vejo novas expectativas florescendo às cegas, como se houvesse um motivo ainda oculto para tudo o que está acontecendo. Momentos emocionantes ressurgem ao acaso, mágoas e decepções se apagam aos poucos e alguém que eu nunca imaginei está apostando em mim. Sinto que estou indo em direção à uma fresta de esperança no final do corredor, que não é para o lado de fora. Por isso continuarei na academia, agora estudando para lecionar pois, mais do que nunca, sinto que é a melhor coisa que eu sei fazer. Este é o plano para este ano, que se soma a alguns cursos de literatura para estimular a mente, muito trabalho de design para lubrificar os olhos, alguns desenhos para regular o traço e, se sobrar tempo e espaço, um pouco de ócio coletivo ou solitário para aquecer o espírito. Evidentemente, serão apenas tentativas. Com minha velha pistola em punho, estou começando novamente a disparar ao acaso com a sensação de que finalmente haverá alguém à altura das balas.
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