O título foi emprestado do 8º capítulo da primeira parte do livro “A Cortina” de Milan Kundera, mas por enquanto é provisório. Refere-se neste caso à uma pequena tentativa coletiva de criação literária, iniciada por Ivan Mizanzuk e continuado por mim, Matheus Mantovai e Tassiana Kohl, sendo o texto ainda inacabado. Segue abaixo o resultado deste singelo experimento:

hipertexto

Por ora, é apenas isso. Para não perder o ensejo, deixo aqui também um recorte da novela gráfica de Chris Ware, Jimmy Corrigan - the smartest kid on earth, uma excelente leitura de criado-mudo. Fica a dica.

“Na vida de algumas pessoas há momentos – aliás dias, semanas e até anos a fio – tomados por uma sensação palpável de que toda atividade é inútil. Talvez ao despertar numa manhã ensolarada e promissora sintamos nossa criança interior reanimar-se, um sentimento logo dissipado pela mentira mascarada da vida adulta nos devolvendo o olhar no espelho do banheiro. Ou quem sabe tenham acabado de nos informar que não somos, no fim das contas, o companheiro para a vida toda que tinham pensado que éramos, e tenham nos pedido o favor de não mais visitar, telefonar ou dividir os lençóis, e também para, na primeira oportunidade, darmos uma passada a fim de recolhermos nossos pertences pessoais. Ou quem sabe o avô pelo qual sempre sentimos amor no grau mais puro, ele que nos mostrou que a vida podia ser tolerável e alegre apenas dizendo as palavras certas, ou contando a história certa, ou fazendo um elogio certeiro, tenha caído naquele estado vital em que só a menor porção de vida resta em seu corpo para fins de subsistência, porventura até mesmo transformando ou invertendo cruelmente aquela personalidade outrora generosa e iluminada num doppelgänger rancoroso e vingativo que talvez nem sequer nos reconheça. Ou quem sabe você tenha simplesmente sentado nu na poltrona da sala no meio da noite e, de forma um tanto inesperada, sido assaltado pela consciência horrível e angustiante de tudo que o conduziu à situação presente, a impotência de sua infância, as amizades perdidas, os encontros nunca concretizados, os corações partidos, e tenha implorado a quem quer que ouvisse pôr um fim a tudo isso, uma solução, um encerramento do programa antes que avançasse nem mais um minuto sequer.

Em tempos assim, e em tantos outros não descritos, muitos de nós buscam uma forma de espetáculo que possa fornecer distração ou consolo. Podemos ir ao cinema da esquina, ligar o televisor ou comer um bolo na esperança de encontrar algo que nos estimule ou que, de preferência, e de forma bem mais rara, proporcione uma ressonância solidária com nosso estado de espírito, seja de maneira específica ou por princípio filosófico geral. Em todo caso, o sucesso da empreitada depende sobretudo da qualidade do esquete, sitcom ou guloseima consumida e de seus autores terem alguma consideração com esse aspecto da vida ou quererem apenas lucrar com ele. No segundo caso, é provável que o componente principal da experiência possa ser identificado como uma intenção fundamental do autor de distrair ou divertir; no primeiro, um desejo do autor de que todo mundo se sinta tão mal quanto ele. Assim, um indivíduo pensante seria levado a concluir que, no geral, a procura de empatia emocional na arte é uma busca temerária relegada aos deficientes intelectuais e aos feios, pois esses não têm mais com que se ocupar. Além disso, é visualmente desagradável ficar se lamentando, e esses ‘períodos desafortunados’ acabam passando sozinhos, e, se não passarem, o suicídio é sempre uma opção, para o alívio do resto de nós.

A maioria dos compradores deste livro, porém, são decerto pessoas dinâmicas, atraentes e sexualmente confiantes para quem a dor é mera abstração ou, nos piores casos, um inconveniente tratável com medicamentos caros. Por conseguinte, esperam encontrar algo que os atiçará ou alegrará por um instante, lhes incrementará o ‘visual’ de acordo com a moda ou os tornará mais ‘in’, e com certeza fizeram a escolha certa, pois a mídia das histórias em quadrinhos aqui adotada jamais expressará nada a não ser os sentimentos mais miseráveis e vazios. Com efeito, o livro nem precisa ser lido, bastante expô-lo como símbolo de exuberância juvenil, como um automóvel chamativo ou música sulista norte-americana executada por um aristocrata.”

por marcos beccari | , edit post

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