Nunca me arrisquei falar o que eu penso sobre o natal. Não vim de uma cidade do interior, não tenho nostalgia ou qualquer coisa do gênero. Meu aniversário é no dia seguinte e, perdoem-me os cristãos, isso é mais importante pra mim. E disso sim tenho boas lembranças. Mas sobre o natal, as pessoas que eu conheço também nunca mostraram muita simpatia: as insuportáveis músicas natalinas, crianças berrando feito bezerros, preguiça de pegar fila nos shoppings, lixo de entretenimento na TV, cansaço de tanto ter que sorrir. Já dizia Drummond: “Alguém observou que cada vez mais o ano se compõe de 10 meses; imperfeitamente embora, o resto é Natal. É possível que, com o tempo, essa divisão se inverta: 10 meses de Natal e 2 meses de ano vulgarmente dito.”

Contudo, arrisco-me a dizer que este pensamento mudou quando eu visitei minha família ontem. Todo ano eles me esperam com muita alegria. À princípio, me senti um cretino insensível. Mas logo em seguida tentei entender como simplesmente estar ali me aliviava tanto. Afinal, é só mais um natal, dentre mais uns 30 que passaremos juntos. Pois é. Talvez seja isso, uma simples tradição cultural que tenta disfarçar, por um instante, a brevidade da vida. Há pouco tempo atrás eu brincava com os meus primos no quintal da casa da minha tia em São Paulo. Hoje é mais silencioso, somente com meus pais e minha irmã, que por sinal cresceu muito depressa. É o primeiro natal que minha avó não está mais conosco. Então volto ao dilema de que ser é aquilo que se perde. Porque na verdade era bom ter todas aquelas pessoas por perto. Se eu amadureci de lá pra cá, de alguma forma eu devo isso à minha família. Se eu consegui terminar uma faculdade e me esforcei tanto para entrar no mestrado, é porque havia uma singela preocupação familiar que insistia em não me deixar desistir de minhas capacidades. Imagino como é ter um filho pessimista e mal-humorado como eu. Não deve ser muito legal. E por menor que fosse esse esforço dos meus pais, isso fazia com que meus erros e tentativas fracassadas não fossem tão traumatizantes. Vejo hoje que minha família tem tentado desde sempre me impedir de desistir das coisas. E pela primeira vez, vejo o natal como um momento de gratidão. Não há nada de nostalgia, esperança, paz e solidariedade. Gratidão, só isso. E pra mim isso significa mais do que qualquer outra coisa.

Este é um vídeo do Bon Iver, feito pelos franceses da La Blogotheque. Acho que ilustra bem a tal gratidão a qual me refiro.

por marcos beccari | edit post

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