Pois é, ninguém aguenta mais ouvir falar do N Design, muito menos eu (já falei demais por aqui). Mas vale ainda registrar algumas constatações interessantes. A primeira delas é que meu colega vidente Marcio Baraco mais uma vez provou seu poder de prever as coisas – vide ao lado as cartas que ele mandou para a comissão de Conteúdo do N Design em meados de 2008. Sua única falha, porém, se deu pelo fato de que não haviam (não que eu tenha notado) os tais “instigadores naturais”, e olha que eu procurei bastante. No final do ano passado, já bem afastado da corporação imersão, fiz algumas anotações (seguem abaixo) para tentar resgatar aqueles questionamentos que tantas vezes eu discuti com o marcinho e com o Ivan, em um tempo remoto de altruísmo estudantil. Pois é meus jovens, o que eu tenho a dizer sobre isso é que a adolescência é constrangedora para todos, mas um dia passa e o importante é aprendermos que certas coisas são como deveriam ser e que não devemos questionar as previsões do marcinho. Já posso escutar a voz fina dele falando “eu avisei!” com aquele sorriso desinteressado que só ele consegue fazer.
À parte disso, posso dizer que todo esse lance esquisito de sair de casa e interagir com seres humanos me rendeu, de modo verdadeiramente inesperado, o 1º lugar em Design Gráfico no prêmio Bom Design. Embora eu tenha dado uma de woody allen por não ter comparecido na premiação, juro que não foi intenção blasé – eu estava no meio de uma das atividades que ministrei ao lado do Ivan e do Matheus. Aliás, agradeço a ambos por terem me ajudado, é sempre bom sentir-se em casa naquelas salas e corredores gelados da UP. Agradeço também pela companhia do pessoal old times do 304: Ânderson, João e Móveis (parabéns pelo start up). Devo agradecer também ao prof. Ken pela iniciativa do almoço com o Billy Bacon e o prof. Rogério de Almeida - foi deveras útil aquela conversa toda (num excelente restaurante japonês). Aliás, agradeço pela compreensão dos três com relação às minhas questões durante o debate, sei que eu forcei um pouco a barra mas o pessoal tem elogiado bastante a nossa discussão. Confesso que eu estava curioso em conhecer o prof. Rogério, muitíssimo competente e gente fina por sinal, pena que não deu tempo de discutirmos mais sobre o imaginário no design.

Não posso deixar de agradecer ao pessoal de conteúdo, especialmente a Erika que, mesmo com alguns empecilhos, dedicou bastante atenção às minhas chatisses de sempre. Anna Paula, obrigado pelo apreço em minhas oficinas; Vida, obrigado pela companhia pós-evento; Juliana Bach e Rosana Vasques, foi um prazer conversar com vocês novamente; Janayna Veloso e Ana Claudia Berwanger, adorei conhecer vocês (Ana, desculpe novamente o corte no debate), Kelli, parabéns pelo debate (acompanhei pela internet e gerei uma briga bacana no chat, pergunta pro Daniel); Mauro Alex, muito obrigado pelas dicas de documentário e pela conversa pós-evento. Enfim, deixo minhas mais sinceras congratulações ao pessoal da CONDE – sim, vocês conseguiram. Retomando meu amigo Marcinho, gostaria de deixar abaixo um trecho de um zine muito bom (Referencial Temporário #01) que ele me deu em 2008 durante a mesa-redonda que fizemos no Purungo 9 (ilustrações abaixo de minha autoria). Estes seus fanzines deviam estar circulando por lá! Sua invisibilidade faz falta por aqui, caro amigo =)

Guia Prático de Invisibilidade (ou como parar de se preocupar e amar o Espetáculo)
Se os raios de luz não fossem refletidos pelo seu corpo, isso basicamente seria um saco. Esse tipo de invisibilidade é um dos piores superpoderes que se pode imaginar. Mas há uma outra forma, uma que você pode usar. (...) Para ser “prático”, podemos resumir a técnica em 4 lições simples.
1. NÃO QUEIRA. Seres humanos têm essa coisa estranha de gostar dos outros e querer chamar atenção. Mesmo quando estamos tentando nos esconder. E isso inclui você. Para se tornar invisível, você tem que mudar lá dentro esse impulso “Ei, ei, olha pra mim, eu preciso de atenção!”. Você não precisa que as pessoas te percebam e se preocupem com você e cuidem de você. Você cuida de si mesmo.
2. NÃO JOGUE O JOGO. Relacionamentos humanos são quase sempre regulados através de papéis pré-fixados. Ao invés de simplesmente ser, você está sendo o que as pessoas esperam de você (ou até o que você imagina que as pessoas esperam). Esses papéis e jogos não são necessariamente ruins, mas eles são inflexíveis. Você pode simplesmente se recusar a jogar. Se as pessoas ao redor insistirem em tentar te enquadrar nessas formas, simplesmente vá embora.
3. NÃO JULGUE. O problema dos jogos vai além dos papeis pré-fabricados. Os julgamentos rígidos também te aprisionam. Isso é: as pessoas não te avaliam pelo que você faz e como reage, mas por um conjunto de expectativas que ninguém discutiu com você, nem você mesmo. Se você é bom ou mau, amável ou odiável, legal ou sacal, depende de padrões que podem não te ajudar. Se você pára de julgar as pessoas por esses padrões, consegue ver os padrões e se mover livre deles.
4. O MELHOR PARA TODO MUNDO. A cada instante, tente fazer o melhor pra todo mundo. Isso significa apenas que você aceita as situações que vive de forma aberta. Abra seus olhos e, a cada momento, se pergunte não “O que eu quero?” mas “Qual forma de agir agora é a melhor nesse contexto?” Nem tente ajudar os outros nem tente se defender deles, simplesmente considere o que você vive do ângulo mais amplo possível. Seja íntegro, seja aberto, preste atenção, se interesse. Sempre há uma outra forma.
Essas quatro idéias podem parecer lugar comum demais para terem alguma utilidade. Se você pensa assim, talvez já seja invisível – mas se fosse o caso você entenderia o valor delas. Não é suficiente achar que não quer ser visto, é preciso não querer do fundo do seu ser. Por outro lado, talvez as idéias pareçam um esforço grande demais. Se for o caso, simplesmente respire fundo e faça.
Se você fizer isso, e fizer por tempo suficiente para que se torne um hábito, disponível ao invés de ser um esforço, você começará a notar algumas coisas. E a primeira é que, sim, o mundo ao redor quer te fuder. Tipo, te faz querer comprar coisas que você não precisa, te força a ter relacionamentos baseados no medo e não na confiança, e assim por diante. Mas o mais importante é que você vai perceber que o mundo só consegue fazer isso usando coisas que estão dentro de você. Só pode te fazer desejar produtos ao manipular o desejo que já existe antes em você mesmo, só consegue criar um estado de ansiedade ao usar o medo que você tem mas nunca se forçou a encarar.
Todos esses medos e desejos formam uma prisão. (...) Mas o controle é um processo complexo. Tanto o indivíduo controlado quanto o mecanismo de controle são sistemas dinâmicos, complicados, algumas vezes imprevisíveis. Controle significa que podemos distinguir padrões dentro dessa complexidade. Em sistemas simples, é fácil separar os padrões impostos pelo mecanismo de controle daqueles nativos do indivíduo. Mas no dia-a-dia (..) essa separação é quase impossível. A dificuldade de se tornar invisível vem justamente daí. Não há limite entre o que você quer e o que está sendo forçado a querer. Um carro te dá liberdade ou te aprisiona à rede de postos de gasolina? As duas coisas.
Nesse caso, um monte de gente acha que é preciso descobrir ferramentas melhores pra identificar o inimigo. Esses são os carinhas do pós-modernismo. Eles querem achar alguma categoria ou classe que incorpore todas essas dificuldades do mundo e possa ser combatida (mas eles nunca admitem). Mas há outra possibilidade. Viver como se não houvesse inimigos. Ao invés de lutar, construir. Ao invés de buscar o mundo verdadeiro por trás das ilusões da propaganda, articular a complexidade do mundo. E tornar-nos mais complexos.
Mecanismos de controle te impedem algumas coisas, mas te possibilitam outras. A matemática te impede de somar 2 com 3 e obter qualquer coisa exceto 5. Mas ela também te permite evitar que o garçom te cobre a mais no fim da noite. E te faz entender quantidades e proporções e várias outras coisas. Ela diminui a sua liberdade para aumentar sua liberdade. A sociedade já era baseada em meios de controle mesmo antes de serem criadas formas de transmissão em massa. A fofoca é um dos meios de controle mais poderosos, ainda hoje – todo mundo sabe que menina é “vadia” e quem “pode um dia chegar a senador”, e as pessoas acabam se conformando a essas idéias!
Faça seus próprios nomes para os mecanismos de controle. Entenda eles e aprenda a usar eles de formas criativas. Descategorize. Deshipnotize-se. Use as estruturas do espetáculo para criar liberdade. E quando a coisa engrossar – torne-se invisível. [Marcio Rocha Pereira, 2008]
*Notícias rápidas: os encontros do grupo de estudos sobre Filosofia do Design serão retomados a partir do dia 09/08. Foi aprovado o curso de Ilustração e Construção de Sketchbooks a ser ministrado por mim e pelo prof. Gustavot Diaz na Universidade Positivo, maiores informações em breve. Em breve também, provavelmente um texto meu na abcDesign e na Revista Brasileira de Design, aguardem. ;)