Corte-aberto-no-pé-esquerdo Enquanto a realidade não tem vergonha de se repetir, o pensamento, em face à repetição da realidade, acaba se calando. O alcance existencial de um fenômeno amoroso não é percebido com maior acuidade no momento de sua expansão, mas sim quando ele se encontra em seus primórdios, incomparavelmente mais fraco do que se tornará depois. A construção do sentido antes dos significados só se revela com a análise crua e desinteressada – tudo isso é só um teste, podendo portanto dar errado – assim como dar certo, e isso é o pior que pode acontecer. Os casais que caminham de mãos dadas apresentam um semblante tranquilo e desesperado, tão assustadoramente assustados quanto aqueles que preferem ficar sozinhos e juntos ao mesmo tempo, pois cada um precisa de si mesmo desde que haja alguém testemunhando. Então o dilema se revela entre a falsidade do conforto dissimulado e a realidade conformista solitária. Ou ainda: a vida em conjunto só é possível quando não há mais escolha ou a desistência é o mesmo que a permanência.

Dormir e sonhar que está sonhando um sonho rápido como a vida significa perder a capacidade de sonhar, pois não nos sobra tempo algum para lembrar o sonho sonhado dentro do sonho. Assim nos esquecemos de repente de nos dar bom dia e os dias nublados tornam-se mais maduros e duros e escuros porque afinal esperamos pelo futuro sem tempo de perder tempo ao lado de outrem, pois o mundo lá fora é curto e enorme e pode quem sabe nos homenagear ou arrancar um pé. Não há como fugir disso. Apenas caso não consigamos aprender mais nada com o amor e, neste caso, as lembranças naturalmente serão reinventadas pelo esquecimento. Se ainda imaginamos coisas é porque estamos vivos – ou não. Ou porque precisamos saber dizer aquilo que não sabemos que os outros precisam ouvir, pois se eu pudesse estar em vários lugares ao mesmo tempo sem ser visto em nenhum lugar estaria agora te vendo escondido enquanto você tenta ler esta bobagem.

Então não mais conseguiríamos retornar ao tempo e ao espaço que insistem em transar do lado de fora da janela. Estaríamos dentro daquilo que permanece lá fora, algo parecido com moinhos, esquinas, abismos e sonhos da infância. Eu descobriria quem de fato você foi e no que se transformou quando eu não mais a reconhecia. Você descobriria quem era aquele sujeito que te torturava sorrindo e por que ele não tinha olhos. Olharíamos no espelho e não veríamos nada, restando-nos apenas mergulhar na privada e apertar a descarga, sabendo que sairíamos rindo em algum outro lugar. Não haveria mais ninguém no mundo todo, nem prédios ou paisagens, tudo em volta seria branco e você estaria nua no meio de tudo, sentada no chão, como eu tentei desenhar agora pouco. Você socaria e chutaria meu estômago, eu arrancaria os seus cabelos, nos beijaríamos e, por fim, decidiríamos dar um passeio de carro.

Nunca jogue pela janela uma pomba branca depenada e sem asas caso haja um homem negro de terno sem uma perna no ponto de ônibus das almas rasas.

pentax sarcastic epilogue of current season

foto_27_07 Relato através deste tudo aquilo que eu não vivi, mas que presenciei quando estive onde pensei não estar, desaparecendo do lugar onde eu deveria talvez ficar. Bianca, filha de Amélia, mantém uma secreta relação sexual com um assassino em série e sem nome que, por sua vez, era o antigo amor de Amélia, mãe de Bianca. Deste triângulo clichê e psicótico nasce Maria, ao mesmo tempo em que sua mãe Bianca morre. Vicente, desde sempre apaixonado por Bianca, suspeita de um assassinato por parte daquele sujeito sem nome, denunciando-o para a polícia - sem provas e, portanto, sem êxito. Para continuar com a ilusão cotidiana de sua vida, Vicente apaixona-se por Maria que, sem ninguém desconfiar, viciava-se cada vez mais em heroína. Amélia, avó de Maria que sempre se masturbava pensando em Vicente, descobre o segredo da neta e resolve matar o traficante que lhe fornecia drogas e que transava com ela. O que ninguém sabia é que esse traficante era pai daquele assassino em série e sem nome, o qual acaba de sair do manicômio após ter escrito um livro em uma língua desconhecida. Maria então lê o livro do assassino sem nome e se apaixona por ele que, por sua vez, só pensa em se vingar da morte de seu pai. Ao invés de matar Amélia (que matou o pai do assassino sem nome), decide por estuprá-la na frente de Bianca que, discretamente, telefona para Vicente. Antes de Vicente chegar, o assassino sem nome é surpreendido por Amélia que consegue roubar sua arma. Quando Vicente aparece, Amélia obriga os três a participarem de uma orgia. Em meio a tanto caos e desespero, todos gozam incessantemente até entrarem em coma por perda excessiva de hormônios. Após quatro anos, os quatro acordam simultaneamente do coma com amnésia irreversível, seguindo cada qual o seu caminho sem nunca mais se encontrarem novamente. Por fim e não menos relevante, o livro do assassino sem nome se torna um best-seller, permanecendo porém indecifrável até hoje.

carta_marcinho01 Pois é, ninguém aguenta mais ouvir falar do N Design, muito menos eu (já falei demais por aqui). Mas vale ainda registrar algumas constatações interessantes. A primeira delas é que meu colega vidente Marcio Baraco mais uma vez provou seu poder de prever as coisas – vide ao lado as cartas que ele mandou para a comissão de Conteúdo do N Design em meados de 2008. Sua única falha, porém, se deu pelo fato de que não haviam (não que eu tenha notado) os tais “instigadores naturais”, e olha que eu procurei bastante. No final do ano passado, já bem afastado da corporação imersão, fiz algumas anotações (seguem abaixo) para tentar resgatar aqueles questionamentos que tantas vezes eu discuti com o marcinho e com o Ivan, em um tempo remoto de altruísmo estudantil. Pois é meus jovens, o que eu tenho a dizer sobre isso é que a adolescência é constrangedora para todos, mas um dia passa e o importante é aprendermos que certas coisas são como deveriam ser e que não devemos questionar as previsões do marcinho. Já posso escutar a voz fina dele falando “eu avisei!” com aquele sorriso desinteressado que só ele consegue fazer.

carta_marcinho02 À parte disso, posso dizer que todo esse lance esquisito de sair de casa e interagir com seres humanos me rendeu, de modo verdadeiramente inesperado, o 1º lugar em Design Gráfico no prêmio Bom Design. Embora eu tenha dado uma de woody allen por não ter comparecido na premiação, juro que não foi intenção blasé – eu estava no meio de uma das atividades que ministrei ao lado do Ivan e do Matheus. Aliás, agradeço a ambos por terem me ajudado, é sempre bom sentir-se em casa naquelas salas e corredores gelados da UP. Agradeço também pela companhia do pessoal old times do 304: Ânderson, João e Móveis (parabéns pelo start up). Devo agradecer também ao prof. Ken pela iniciativa do almoço com o Billy Bacon e o prof. Rogério de Almeida - foi deveras útil aquela conversa toda (num excelente restaurante japonês). Aliás, agradeço pela compreensão dos três com relação às minhas questões durante o debate, sei que eu forcei um pouco a barra mas o pessoal tem elogiado bastante a nossa discussão. Confesso que eu estava curioso em conhecer o prof. Rogério, muitíssimo competente e gente fina por sinal, pena que não deu tempo de discutirmos mais sobre o imaginário no design.

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Não posso deixar de agradecer ao pessoal de conteúdo, especialmente a Erika que, mesmo com alguns empecilhos, dedicou bastante atenção às minhas chatisses de sempre. Anna Paula, obrigado pelo apreço em minhas oficinas; Vida, obrigado pela companhia pós-evento; Juliana Bach e Rosana Vasques, foi um prazer conversar com vocês novamente; Janayna Veloso e Ana Claudia Berwanger, adorei conhecer vocês (Ana, desculpe novamente o corte no debate), Kelli, parabéns pelo debate (acompanhei pela internet e gerei uma briga bacana no chat, pergunta pro Daniel); Mauro Alex, muito obrigado pelas dicas de documentário e pela conversa pós-evento. Enfim, deixo minhas mais sinceras congratulações ao pessoal da CONDE – sim, vocês conseguiram. Retomando meu amigo Marcinho, gostaria de deixar abaixo um trecho de um zine muito bom (Referencial Temporário #01) que ele me deu em 2008 durante a mesa-redonda que fizemos no Purungo 9 (ilustrações abaixo de minha autoria). Estes seus fanzines deviam estar circulando por lá! Sua invisibilidade faz falta por aqui, caro amigo =)

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Guia Prático de Invisibilidade (ou como parar de se preocupar e amar o Espetáculo)

Se os raios de luz não fossem refletidos pelo seu corpo, isso basicamente seria um saco. Esse tipo de invisibilidade é um dos piores superpoderes que se pode imaginar. Mas há uma outra forma, uma que você pode usar. (...) Para ser “prático”, podemos resumir a técnica em 4 lições simples.

1. NÃO QUEIRA. Seres humanos têm essa coisa estranha de gostar dos outros e querer chamar atenção. Mesmo quando estamos tentando nos esconder. E isso inclui você. Para se tornar invisível, você tem que mudar lá dentro esse impulso “Ei, ei, olha pra mim, eu preciso de atenção!”. Você não precisa que as pessoas te percebam e se preocupem com você e cuidem de você. Você cuida de si mesmo.

arte emergencial_HQ-12. NÃO JOGUE O JOGO. Relacionamentos humanos são quase sempre regulados através de papéis pré-fixados. Ao invés de simplesmente ser, você está sendo o que as pessoas esperam de você (ou até o que você imagina que as pessoas esperam). Esses papéis e jogos não são necessariamente ruins, mas eles são inflexíveis. Você pode simplesmente se recusar a jogar. Se as pessoas ao redor insistirem em tentar te enquadrar nessas formas, simplesmente vá embora.

3. NÃO JULGUE. O problema dos jogos vai além dos papeis pré-fabricados. Os julgamentos rígidos também te aprisionam. Isso é: as pessoas não te avaliam pelo que você faz e como reage, mas por um conjunto de expectativas que ninguém discutiu com você, nem você mesmo. Se você é bom ou mau, amável ou odiável, legal ou sacal, depende de padrões que podem não te ajudar. Se você pára de julgar as pessoas por esses padrões, consegue ver os padrões e se mover livre deles.

4. O MELHOR PARA TODO MUNDO. A cada instante, tente fazer o melhor pra todo mundo. Isso significa apenas que você aceita as situações que vive de forma aberta. Abra seus olhos e, a cada momento, se pergunte não “O que eu quero?” mas “Qual forma de agir agora é a melhor nesse contexto?” Nem tente ajudar os outros nem tente se defender deles, simplesmente considere o que você vive do ângulo mais amplo possível. Seja íntegro, seja aberto, preste atenção, se interesse. Sempre há uma outra forma.

Essas quatro idéias podem parecer lugar comum demais para terem alguma utilidade. Se você pensa assim, talvez já seja invisível – mas se fosse o caso você entenderia o valor delas. Não é suficiente achar que não quer ser visto, é preciso não querer do fundo do seu ser. Por outro lado, talvez as idéias pareçam um esforço grande demais. Se for o caso, simplesmente respire fundo e faça.

arte emergencial_HQ-2Se você fizer isso, e fizer por tempo suficiente para que se torne um hábito, disponível ao invés de ser um esforço, você começará a notar algumas coisas. E a primeira é que, sim, o mundo ao redor quer te fuder. Tipo, te faz querer comprar coisas que você não precisa, te força a ter relacionamentos baseados no medo e não na confiança, e assim por diante. Mas o mais importante é que você vai perceber que o mundo só consegue fazer isso usando coisas que estão dentro de você. Só pode te fazer desejar produtos ao manipular o desejo que já existe antes em você mesmo, só consegue criar um estado de ansiedade ao usar o medo que você tem mas nunca se forçou a encarar.

Todos esses medos e desejos formam uma prisão. (...) Mas o controle é um processo complexo. Tanto o indivíduo controlado quanto o mecanismo de controle são sistemas dinâmicos, complicados, algumas vezes imprevisíveis. Controle significa que podemos distinguir padrões dentro dessa complexidade. Em sistemas simples, é fácil separar os padrões impostos pelo mecanismo de controle daqueles nativos do indivíduo. Mas no dia-a-dia (..) essa separação é quase impossível. A dificuldade de se tornar invisível vem justamente daí. Não há limite entre o que você quer e o que está sendo forçado a querer. Um carro te dá liberdade ou te aprisiona à rede de postos de gasolina? As duas coisas.

Nesse caso, um monte de gente acha que é preciso descobrir ferramentas melhores pra identificar o inimigo. Esses são os carinhas do pós-modernismo. Eles querem achar alguma categoria ou classe que incorpore todas essas dificuldades do mundo e possa ser combatida (mas eles nunca admitem). Mas há outra possibilidade. Viver como se não houvesse inimigos. Ao invés de lutar, construir. Ao invés de buscar o mundo verdadeiro por trás das ilusões da propaganda, articular a complexidade do mundo. E tornar-nos mais complexos.

arte emergencial_HQ-3 Mecanismos de controle te impedem algumas coisas, mas te possibilitam outras. A matemática te impede de somar 2 com 3 e obter qualquer coisa exceto 5. Mas ela também te permite evitar que o garçom te cobre a mais no fim da noite. E te faz entender quantidades e proporções e várias outras coisas. Ela diminui a sua liberdade para aumentar sua liberdade. A sociedade já era baseada em meios de controle mesmo antes de serem criadas formas de transmissão em massa. A fofoca é um dos meios de controle mais poderosos, ainda hoje – todo mundo sabe que menina é “vadia” e quem “pode um dia chegar a senador”, e as pessoas acabam se conformando a essas idéias!

Faça seus próprios nomes para os mecanismos de controle. Entenda eles e aprenda a usar eles de formas criativas. Descategorize. Deshipnotize-se. Use as estruturas do espetáculo para criar liberdade. E quando a coisa engrossar – torne-se invisível. [Marcio Rocha Pereira, 2008]

*Notícias rápidas: os encontros do grupo de estudos sobre Filosofia do Design serão retomados a partir do dia 09/08. Foi aprovado o curso de Ilustração e Construção de Sketchbooks a ser ministrado por mim e pelo prof. Gustavot Diaz na Universidade Positivo, maiores informações em breve. Em breve também, provavelmente um texto meu na abcDesign e na Revista Brasileira de Design, aguardem. ;)

Mesmo assim, quando alguém expõe uma ideia, é preciso preencher com palavras e frases de efeito as lacunas que a incoerência inevitavelmente traz consigo. Mas afinal, pra quê pensar, refletir e questionar? Não temos tempo, isso não leva a lugar nenhum, certo?

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Certo. Terça-feira (13/07) apresentarei a Graphic Novel “Dasein: o ser e a essência” às 16h00 (Bloco Vermelho – Auditório 2) e seguirei para o Teatro Positivo, mediando o Debate “Ser, Estar, Sentir”. Quarta-feira ministrarei o mergulho “Por uma Filosofia do Design”, das 13h00 às 18h00 no Bloco Bege, sala 212, 2º pavimento. Quinta-feira apresentarei minha pesquisa de mestrado “Uma abordagem dos Estudos do Imaginário aplicados à Filosofia do Design” às 16h00 no Bloco Vermelho, Auditório 2. Sexta-feira meus amigos Ivan Mizanzuk e Matheus Mantovani me ajudarão no mergulho “Design + Literatura = Criação Literária”, que ocorrerá das 13h00 às 18h00 no Bloco Bege, sala 209, 2º pavimento. Por fim, ministrarei no sábado o mergulho “Sketchbook e o Método do Devaneio” das 13h00 às 18h00, no Atelier de Desenho, Bloco de Design. Você já está convidado, pense duas vezes antes de ir.

Pra quem não sabe do que estão falando, trata-se disso aqui. Aproveito pra deixar meus mais sinceros agradecimentos às professoras Isabela Sielski e Lurdete Biava que me receberam muito bem nessa última sexta-feira, em Florianópolis, para a banca desta pequena preciosidade de Anna Paula Stolf. Enfim, continuarei com esta estranha alegria e este necessário incômodo, confiante de que a plenitude não está por aqui, mas logo eu também não estarei. Au revoir.

por marcos beccari 0 comentários | , edit post

“O tempo do romance de Kafka é o tempo de uma humanidade que perdeu a continuidade com a humanidade, de uma humanidade que não sabe mais nada, que não se lembra de mais nada e que mora em cidades que não têm nomes e cujas ruas são sem nome ou têm um nome diferente do de ontem, pois o nome é uma continuidade com o passado e as pessoas que não têm passado são pessoas sem nome” – Milan Kundera (O livro do riso e do esquecimento, 1987).

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Tenho passado a maior parte do dia debruçado em minha dissertação, não exatamente produzindo, mas principalmente lendo, relendo e corrigindo. Vejo-me encurralado no pensamento de Pascal: viver entre o abismo do infinitamente grande e o abismo do infinitamente pequeno. Isso porque lembrar tem sido mais esquecer, não do que se lembra, mas do esquecimento em si. Não sei se me perdoo por ter lido tão pouco, por saber tão pouca coisa sobre ela ou por ter me permitido perder tanto tempo. O difícil é perder o infinito mais próximo, justamente por não haver um fim determinável. Ela ficou sem o infinito de seu amor, eu fiquei sem o infinito do meu tempo e cada um fica sem sua própria obra, pois na busca pela perfeição nos restringimos ao interior da coisa e aí não conseguimos chegar até o fim. O infinito da própria vida ainda é aceitável, mas o infinito de nós mesmos, embora nunca nos preocupemos, nunca deveria ser deixado pra trás. Por isso ninguém tem medo da morte, mas quando nos deparamos com algo que se pareça com ela, ficamos horrorizados.

esboço02 No século retrasado, o romancista Gustave Flaubert escreveu: “que grande necrópole é o coração humano! Para que irmos aos cemitérios? Basta abrirmos as nossas recordações; quantos túmulos!”. Hoje nem isso, não há mais recordações duradouras à altura dos túmulos presenteístas. Não me refiro aos cultos que Maffesoli tanto se instiga, mas sim a essa necessidade de produzir cada vez mais, de interromper o próprio tempo em escritos de desabafo, de amar o próprio túmulo que não existe. É estranho essa impressão de saber tudo e não conseguir dizer nada, as coisas perdem seus nomes e confundem-se num único ser indiferenciado. E não há tempo para perguntas, como Gilbert Cesbron bem observava, “e se fosse isso perder a vida: fazermos a nós próprios as perguntas essenciais um pouco tarde demais?”. Só ela me fazia perguntas sem cessar, perguntas com respostas automáticas, porque o amor é uma interrogação contínua. Trata-se da mesma resposta respondida eternamente frente a questões que gritam o seu jubiloso estou aqui. Se nos fascinamos pela expressão até que a morte nos separe, não seria porque a morte já nos fala de perto?

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Nossos corpos se agitam ao ritmo sexual da existência, pois nenhuma obra de Bachelard ou de Jung foi vivida com uma paixão coletiva tão grande quanto as batidas repetidas de maneira sincronizada entre duas pélvis. Dividimos nosso entusiasmo em um sentimento duplo: o amor é um privilégio e todos os privilégios são imerecidos, sendo preciso pagar por eles. Em outras palavras, devemos escolher entre a expectativa diretamente proporcional ao vazio posterior e a falta de sentido que não dói e não tem gosto. Parece-me que a sexualidade livre do amor diabólico, tão quanto o desejo pelo conhecimento, tornou-se a alegria de uma simplicidade angelical, a modéstia de uma vida irrisória. Ninguém quer entrar no mundo de outra pessoa, mas todos evitam ficar do lado de fora, esforçando-se para se manterem exatamente na fronteira. Tudo parece calmo, normal, com contratos razoáveis que, porém, trazem consigo todo o horror da permanência. Foi assim que Dorian Gray pagou caro por sua ganância vital, pois Wilde nos ensinava que o eterno presente nada mais é do que o tirar das máscaras: “As crianças começam por amar os seus pais; quando crescem, julgam-nos; algumas vezes, perdoam-lhes”. Assim sentimos a náusea de Sartre, um mal-estar das coisas sem peso em um saco vazio no estômago. Ok, ninguém faz ideia do que estou falando. Tudo bem, o que importa é essa extraordinária vontade de todo mundo em viver o próprio corpo.

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E isso se acentua em época de copa do mundo, que seduz a maioria dos reles mortais enquanto os acadêmicos eruditas começam a reclamar sem parar. Já dizia um aristocrata francês do século XVIII, Vauvenargues, “os preguiçosos têm sempre vontade de fazer alguma coisa”. A princípio, parece loucura um país pobre dar-se ao luxo de parar de trabalhar. Mas sou da opinião de Mihai Eminescu, “as pessoas alegres fazem mais loucuras do que as pessoas tristes, porém, as loucuras das pessoas tristes são mais graves”. Isso porque as pessoas alegres possuem uma expressão intensa no ato sexual, o riso irracional da perturbação, da espera, da explosão, da dor, dos gritos, da emoção e da raiva. Embora previsíveis, são expressões amenas, diferente da falta de expressão das pessoas tristes. Essas fazem sexo com cara de nada, como a televisão desligada há anos na sala de estar. Um programa ruim é sempre mais agradável do que programa nenhum ou uma bobina vazia, sem película. Por isso Vitor Hugo afirmava que a esperança é uma memória que deseja, defendendo em sua obra prima que “julgar-se-ia bem mais corretamente um homem por aquilo que ele sonha do que por aquilo que ele pensa”. Os miseráveis não são tão miseravelmente tristes como os bem-aventurados, mas sim plenos de esperança. Assim que o filósofo contemporâneo Mario Sergio Cortella argumenta que “os excessivamente pragmáticos (ou corretamente chamados de idiotas da objetividade) diriam ser esta uma concepção piegas; são esses, com muita probabilidade, incapazes de compreender a esperança como produtora de futuro e aniquiladora da dureza do existir.”

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E o que isso tem a ver com a minha dissertação? Por paradoxal que pareça, finalmente estou entendendo o entusiasmo fútil e ao mesmo tempo tão nobre que as pessoas sentem fora do trabalho, fora da academia, fora de suas dissertações. Algo que não deveria estar fora, pelo menos não mais agora, a crise de tudo é imanente e o sentido do desejo humano deve retornar à superfície das ciências. O paradoxo reside justamente no pra que mudar se sempre foi assim?, uma prerrogativa oposta àquilo que queremos ser, sonhar e viver. Portanto, obrigado por chegar até aqui e não ler até o final - ao menos, eu sempre acho que não e assim eu comprovo toda a problemática por ora descrita. Mas desculpe-me, caso for, pelo inconveniente e, por favor, não me espere no dia seguinte. Não há um final e por isso o infinito de um céu chuvoso em Curitiba é tão bonito.

sorrir-no-escuro Você vem sempre aqui? Deixa o protocolo de lado e diz logo o que quer. Você é bem bonita mas eu não queria uma convivência forçada. Tá na cara que você está carente. E você, insegura. Você escolhe: podemos partilhar interesses e afetos mutuamente ou fingirmos um altruísmo calculista e interesseiro (sem interesses em comum). Não quero ser cínico ou utilitarista, mas você sabe, por si própria ou pelos outros, que mesmo ao lado de quem você gosta é possível se sentir sozinha. Sim, acho que todos nós desejamos isso na maior parte do dia. Faz sentido, a cidade é o antro da solidão. Não, a cidade não é a solidão, a cidade procura anular a solidão, a cidade é mais que isso... a cidade é o vazio. Ei, isso é Huxley. Sim, um admirável mundo novo e pleno de vazios... se somos diferentes, inevitavelmente estamos sós. Evidente, pois quem se importa com quem você é? Por isso eu prefiro estar sozinha. Mas mulher nenhuma é uma ilha, tipo cada um por si. E qual Deus por todos? Ok, eu confesso que aqui está mais para refúgio ou abandono do que para um momento reflexivo. Cuidado com ela, é um vício narcisista. Eu acreditei tanto nele. Há um mistério arrojado no sorriso de uma solteira de casaco aberto, como o seu, quando a vejo novamente aqui. Mas seus olhos, surrealistas, não estão aqui, estão no horizonte, como duas andorinhas voando rumo ao futuro que não o meu. Sim, eu sei, um futuro fácil, do sorriso falso dos que transmutam os tormentos de uma vida egoísta. Pareceu que você perdeu ou conquistou algo muito valioso. Você, de calça jeans rasgada, o decote óbvio, está deixando minha bochecha formigar à espera da volta de um gosto doce. E devo dizer: sinto falta do seu cheiro de sono. Falta da época em que nossa respiração era sincronizada como agora. Este agora, contudo, nunca existiu: a parte viva do agora é quase sempre o depois. Olha aí, já perdi a vontade. Não há como ter vontade por aqui, apenas nos campos verdes ressurgidos na cidade, assistindo vídeo-show, sei lá, desengonçando outras opções para fingir que não se existe. Você dilatou em minha memória amena a lembrança de uma chuva torrencial que outrora estragou um pôr-do-sol. Sua voz arrepia as minhas bolas. Deixe-as comigo se quiser me ver sorrir.

lomo03 “O homem deve ser nobre, generoso e bom” era um conselho de Goethe em tempos do Iluminismo. Poderíamos dizer que nobre significa uma pessoa de caráter e que gêneroso, por sua vez, é sinônimo de altruísta. Mas o adjetivo bom é complicado de ser traduzido nos dias de hoje, tanto quanto o conceito de homem que, já no fim do Humanismo, deixou de se referir ao ser humano em geral. Proponho um pequeno exemplo para ilustrar melhor o que eu quero dizer: um rapaz que acabou de sair de um relacionamento duradouro. Trata-se de uma pessoa nobre, pois não teve receio em ser sincero com sua ex-namorada. Generoso por pensar apenas no bem dela, disposto a fazer qualquer coisa para que ela não sofra. Por fim, é um homem bom de tal forma que é sexualmente saudável e eficaz. Como já dissemos, o conceito de bom é problemático. O rapaz pode não só fazer um filho em uma outra mulher como também contagiá-la com uma doença contraída de sua ex-namorada.

lomo01 Tomemos agora como exemplo a moça que namorava o rapaz. Sem dúvida a sua condição é nobre, uma ilusão amorosa geralmente comove as pessoas. De tal modo é uma moça generosa, qualquer adolescente aleijado e analfabeto seria capaz de conquistá-la. Por fim, é demasiado boa: não só consegue seduzir muito bem, como também consegue desencadear um aumento significativo na venda de preservativos masculinos. Isso é o que se chama, de maneira otimista, precisamente progresso: graças ao efeito retroativo do fim de um namoro, ambos conhecem pessoas novas, tornam-se mais maduros e reconhecem que tudo isso valeu a pena. Contudo, há pessoas que são contra o relacionamento casual e efêmero – estão prontas, em nome do amor, a aceitar um parceiro não tão bom para a vida inteira. Trata-se de pessoas boas num sentido completamente diferente do que se entendeu até agora. Recaímos assim num dilema: ou o sexo casual e a carreira profissional em primeiro lugar, com o desconforto de não haver um parceiro fixo, ou o amor duradouro e uma carreira miserável, com uma vida acomodada. Em outras palavras: solitário e bem sucedido ou comprometido e cômodo. Já podemos deduzir que não é possível sermos simultaneamente bons para nós mesmos e bons para os outros: é necessário escolher se devemos ser santos ou egoístas.

lomo02 Poderíamos reformular a frase de Goethe: “o homem deve ser nobre, generoso e mais ou menos bom. E à medida que o tempo passa, cada vez mais nobre e generoso”. Porém, ainda é problemático pelas seguintes razões: entre o bem puro e categórico, isto é, o bem em si, e o bem egoísta, aplicado a si mesmo, não pode haver absolutamente nenhum compromisso pois, em última análise, tudo o que é bom no caso do bem egoísta é mau no caso do bem categórico. Aquilo que chamamos de ética nos faz optar sempre em detrimento do bem puro. Mas se efetivamente procurarmos o bem puro em nossas atitudes, seríamos obrigados a não fazer mais nada de útil nesta vida. Mesmo a intenção puramente altruísta e filantrópica se manifesta de modo aplicado a algo que seja útil, ou seja, não é puro. Assim as pessoas se iludem em pensar que estão fazendo um bem para si mesmas e ao mesmo tempo para os outros ao firmarem um relacionamento duradouro. Isso porque, infelizmente, vimos que tudo que é bom para alguma coisa, é mau para outra coisa. Os santos que se isolam do mundo, alimentando-se de empregos irrisórios e de sonhos nada pretensiosos, não enxergam o absurdo e a ausência de sentido em suas condições. Afinal, onde quer que não haja um bem egoísta, há preguiça e comodidade. Lembro-me de uma menina que sempre pedia desculpas ao parceiro por não ter sido suficientemente boa, isto é, não conseguia fazê-lo gozar e dormir suficientemente rápido.

lomo04 Aqui podemos retomar o livro do riso e do esquecimento de Kundera, onde o riso dos anjos é o riso de quem dança em círculo. Para Kundera, o círculo, ao mesmo tempo em que representa unidade e harmonia (a roda iguala a todos), tem a forma fechada. O formato do círculo representa todo ideal que, perfeito e harmônico em sua forma, despreza e coloca para fora de sua lógica imperfeições e incongruências humanas. Sonhar com um príncipe encantado é a vontade de integrar-se a um círculo, mais que qualquer convicção racional, que leva as pessoas a aderirem o bem puro, obrigando-as sempre a pensar e a dizer a mesma coisa infinitamente. Mas por detrás de uma verdadeira religião onde se restabelecem a inocência e a pureza supostamente perdidas, há o medo da solidão do indivíduo que, por não ser parte de um todo, sente-se ameaçado pelo que há fora do círculo. Por outro lado, o riso do diabo representa mais do que isso. É o riso de quem, jogado para fora da roda, ao mesmo tempo em que percebe a fragilidade de sua condição, sente nostalgia do tempo em que integrava o círculo. Carregado de sarcasmo e egoísmo, o riso do diabo é ao mesmo tempo a desforra e o consolo de quem não conseguiu ser nobre, generoso e bom. Pois o que há fora do círculo é somente uma sinceridade consigo mesmo, uma morte nada tranquila, porém plena e categórica em si mesma.

[inspirado no texto A guerra e o estado das coisas (Vilém Flusser) e no artigo sobre o riso dos anjos e o riso dos demônios de Betzaida Tavares]

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Mas não é assim. Eu só quis proteger a mim mesmo contra meu próprio vício de existir na pele alheia. Na verdade, somos antenas conectadas a milhões de canais, na busca intensa por um programa mais intenso. Pois ninguém gosta de sentir o tempo passar. Parece que foi ontem, mas não. Não foi nunca. Mesmo assim, havia um cheiro de verde que mantinha um segredo só nosso, uma viagem só de ida. Não importa como eu cheguei ali, nem você, mas chegamos e você pegou-me pelo braço, levou-me para a cadeira e sentou-se diante de mim. Éramos eu e você, frente a frente, no meio de um grande salão escuro. Onde você se perdeu? Alguém que eu amava havia falecido ontem, mas a lembrança é muito fraca. Justamente por isso parecia mentira e eu pensava que iria torná-la deste modo mais real. Sei como é, quando guardamos um segredo parece que um pedaço da vida nos escapa. Você sorriu, segurou minhas mãos e questionou-me: E se já fosse a morte? E se a morte fosse o próprio esquecimento que se dá aos poucos a cada instante? Tenho medo quando pisco os olhos, medo de abrir os olhos e reconhecer um outro em meu lugar, em seu lugar... ou em lugar nenhum. Então o beijo se deu de olhos abertos, durante cada segundo de uma madrugada sem fim.

Sem fim pois havia medo. Sabíamos de alguma forma que dormir seria simular o próprio fim. Algo tentava me avisar, quase que inconscientemente, que logo eu acordaria e perceberia que ainda não consegui encontrá-la. Não você, mas essa fuga da vida que só existe enquanto estamos propriamente vivos. Sabendo disso, você me diz que a estrela que brilha mais forte é aquela que se apaga primeiro. Pois é, mas quem está sonhando afinal? Nunca nos vimos antes e isso implica que qualquer um de nós seja o ser imaginado ou o ser que imagina, sem sabermos onde fica a fronteira da realidade. Foi mais fácil acreditar que éramos a mesma pessoa, com a mesma identidade, como se estivéssemos frente a um espelho e nos espantássemos com o que víamos. Do mesmo modo como você se impressiona ao reconhecer suas antigas falas e pensamentos em minhas palavras, como quando encontramos alguma relíquia da infância no fundo do armário, já esquecida e trazida à tona ao presente. Mas se esquecemos é porque somos alguém diferente do que fomos antes, ainda que hajam ecos de um passado que se transformam em expectativas a serem redescobertas. Lembro-me de imaginar-me nadando contigo numa lagoa perene de águas mornas, logo após o gozo e o cansaço sobre os lençóis, tentando não afundar pois não conhecíamos a profundidade daquilo. A nuca formigava levemente com a superfície das águas, com aquele gosto do café frio que você sempre bebia enquanto eu fumava mais um cigarro.

Se não foi você quem afundou, eu é que não me dei conta de ter parado de respirar. Acordar é a nossa maldição, nunca lembramos exatamente como foi, nem quando, nem como ou por quê. Pensando melhor, talvez seja uma dádiva. Não é você quem conserva o teu encanto nas lembranças que inevitavelmente respiram dentro de mim. Nunca antes você me doeu tanto como eu mesmo me dôo agora. Estes foram os programas mais intensos que nossas antenas conseguiram captar, mas não há como o tempo parar, mesmo que nada disso tivesse existido. Do fundo de minha alma, obrigado por não ter sido. A estrela que brilha mais forte é aquela que se apaga primeiro.

O amor é a nossa capacidade de imaginar a nós mesmos na pele alheia mesmo em sua ausência.

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Hoje o professor disse pra eu continuar escrevendo pois só assim ele consegue me escutar. Alguém aí está me escutando? Então eu pensei que, de fato, não escutamos as pessoas, mas antes a voz delas. Como uma película intransponível, como mascar um chiclete sem tirar o papel. Talvez o texto venha sem o papel, sem o hálito, o sorriso ou a trilha sonora. Mas o texto tem uma voz e creio que isso basta. Não a voz do autor, pelo contrário – é o próprio leitor falando consigo mesmo. Quando você lê um texto, você pega um chiclete no chão, dá uma limpadinha e engole. O difícil é digerir. Não adianta tentar mastigar o vento das palavras faladas. Nosso estômago não está acostumado com chiclete ou com o hálito alheio, só com pipoca e cinema 3d. Mas não quero dar uma de crítico pós-moderno. Não hoje.

O que estou dizendo é que o texto é uma possibilidade disfarçada de real. Ou seja, você não está falando com ninguém mas finge que está. Não há voz, respiração ou olhares, mas é possível sentir tudo isso. Queremos voluntariamente reconhecer uma realidade nas palavras e assim forçamos um sonho lúcido. Alguns consideram uma fuga, um vírus de Burroughs, outros vêem como a verdadeira realidade, no sentido de ser o verdadeiro acesso a ela. Não se pode olhar uma pessoa por dentro, a graça está na pele, nos cabelos, nos olhos. O acesso é mais importante que o fim. As palavras de Kundera são confortáveis, mas o que elas dizem é constrangedor. Os quadros de Tanguy são estranhos, dão medo, mas são lindos. Estamos chegando próximo ao (não) sentido de Deleuze mas eu evitaria esses ares. Por mais tradicionalista que isso possa parecer, as melhores palavras não devem fazer com que o ouvinte procure um significado por detrás delas, mas sim permitir com que ouvinte encontre algo que não estava esperando. Então note que isso tudo pode manter a mesma lógica, manifestando porém outro sentido: quando perdemos alguém lembramos mais da pessoa do que se não a tivéssemos perdido. As boas lembranças sempre se destacam, não há como evitar encontrá-las nas entrelinhas. Eis o instante poético-metafísico bachelardiano: no café mais amargo, no cinza mais cinza. Há um pacto estabelecido que não é cumprido na prática e a parte boa é realmente esperar por algo e enfiar o pé na lama sem nem se dar conta disso.

Aí então reconhecemos que o mundo é muito maior dentro de nós. Uma lembrança se torna próxima e logo está longe novamente, agora sob a forma de expectativa, além do nosso campo de visão. Apenas deste modo, através da perda inevitável, é possível superar o mundo tal como ele é, entregando-nos à imensidão contemplativa de apenas sentir o gosto, sem engolir. O que eu quero dizer, no final das contas, é que não temos tempo de contemplar qualquer coisa se mergulhamos muito afundo nisso. O único lugar seguro e sem limites está dentro de nós, não nos livros, nas pessoas ou no outro lado do mundo. É preciso deixar perder, deixar levar, mas nunca esquecer. Pois, conforme Luis Buñuel já reconhecia, “felizmente, algures entre o acaso e o mistério está a imaginação, a única coisa que protege a nossa liberdade, independentemente do fato de as pessoas continuarem a tentar reduzi-la ou matá-la completamente”. Sentirei saudades.

Ninguém vai reparar, pensei, e decido finalmente acordar e sair de casa. A casa escura com exceção do cigarro matinal que arde frente a tela do computador, tanto quanto meus olhos esfaqueados pelo frio de Curitiba. Meu gato na cama emaranhado nas cobertas exala preguiça, mas ainda gosto dele. Foi o destino, pensamos, esquecidos de que o destino é o nome que damos a tudo o que aconteceu. Mas parece que a vida tem cooperado, vejo no espelho um rapaz de bem, fingindo que a porta dos fundos não está mais ali e você, não mais aqui. Parece. Como um vazio onde sempre nos perdemos, como aquela casa da cascata, tão linda e tão obscura. Ponho a cabeça pra fora da janela e começo a bocejar mostrando os dentes para Deus, que se mantém indiferente no céu. Então eu lembro como era fácil fazer poesia, difícil era de fato apreciar o trágico de cada dia, isto é, palavras comuns, esquecidas e mortas na umidade dos olhos recém-nascidos. Caminho para a faculdade mas ainda vejo as janelas nas ruas, vazias do outro lado e porém jamais fechadas. Você retorna um mês depois, está mais magra, camisa ainda suja daquele café que eu havia derrubado em ti. Tudo bem, eu confesso, não consigo mais ver graça nas pessoas e tenho me trancado em casa a sete chaves, desligo o telefone e finjo que não há mais nada que eu possa fazer. Como se realmente houvesse. Desisto da aula e levo você para casa, tanto tempo que o porteiro não mais te reconhece.

ctba_manhaTanto. A cor do telhado nem sempre é a mesma, mas o sótão é puro estrume, odor vivo de desejos malditos e mal explicados. Perdão, você diz, mas não se preocupe, não há mais anjos no cemitério. Tudo bem, tenho que ir, enquanto estivermos vivos ainda teremos escolha. Eu te mataria se estivesse viva. Porra, você é quem nunca quis ficar, por que tanto medo? Foi apenas um jogo, você queria jogar mas não queria perder, tão óbvio quanto a própria promessa de uma história de verdade. Agressões verbais, seguidas de mordidas no pescoço, intercalados com gritos lancinantes de ódio e paixão. Se todo vento nos abandonasse e assim ficássemos presos aqui, morreríamos em tudo o que sentimos. Então nos recolhemo no dia-a-dia, no conforto de raciocínios lógicos e previsíveis, nus frente a um passado que amanhã será esquecido de novo. Posso estar morta mas ainda consigo ver os sobreviventes, logo depois você se joga na cama e eu me mantenho na poltrona, depois outra discussão, então finalmente nos abraçamos. Meu abraço dura mais que o seu. Mas permanece em meus braços feito uma boneca velha de porcelana e estas palavras te cortam como navalha enferrujada. Larga-me imediatamente e acende um cigarro. E mais um, pode se vestir agora. Sempre rimos quando um de nós tira a roupa à toa. Mas hoje não há risada. Você só me pede perdão, orgulhosa demais para ser perdoada, burra demais para entender que a questão não é o perdão, é a perda. Penso em te falar tudo isso, mas não adiantaria, não digo nada e tiro a roupa. Então você sugere passar um café, assim, de repente, como se eu não estivesse com frio. Tranco a porta do quarto e te digo que o destino é tudo aquilo que já não conseguimos imaginar não ter acontecido.