“Um filósofo que formou todo o seu pensamento atendo-se aos temas fundamentais das ciências, que seguiu o mais exatamente possível a linha do racionalismo ativo, a linha do racionalismo crescente da ciência contemporânea, deve esquecer o seu saber, romper com todos os hábitos de pesquisas filosóficas, se quiser estudar os problemas propostos pela imaginação poética.” (Gaston Bachelard em A Poética do Espaço, 1957)

Assim Bachelard abandonou sua postura “diurna” e se entregou à nostalgia noturna do imaginário poético. E com este trecho eu comecei minha odisséia em busca de uma possível Metodologia Fenomenológica aplicada ao Design Gráfico, tema de meu projeto de pesquisa no Mestrado em Design. Se você for doido e estiver interessado, sinta-se à vontade para opinar e colaborar comigo (baixe AQUI a proposta projetual). É óbvio que Design não tem relação nenhuma com Fenomenologia (por enquanto), mas é grande a tentação de contrariar o estigma “informacional” da academia. Assim, conto com o auxílio de meu amigo Ivan Mizanzuk (que gentilmente me forneceu o livro da citação acima), com algumas anotações rápidas da grandiosa Glória Kirinus e, sobretudo, com a orientação da minha querida professora Stephania Padovani. Não faço idéia de onde isso vai chegar, só espero contribuir de alguma forma em um cenário que cada vez mais perde sua utilidade justamente por restringir-se à ela. Não pretendo seguir a tendência de objetivar aquilo que é apenas o próprio resultado, mas sim valorizar tudo aquilo que há por detrás dele. Enfim, aos poucos vou explicando melhor, nos próximos textos, como andam minhas pesquisas.

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A ilustração acima, tirada deste livro, é só para lembrar que a Editora Parêntesis está mais ativa do que nunca neste ano. Nosso primeiro trabalho concluído foi o site da Editora Caderno Listrado, dirigida por Daniel Barbosa que, por sinal, tem sido uma ótima fonte para contatos e, sobretudo, um grande amigo. Graças a ele, consegui fazer a capa do próximo livro da Assionara Souza e tive a oportunidade de participar de um projeto editorial pretensioso, a Revista PANO, envolvendo pessoas a quem dedico muito respeito e admiração: Carlito Azevedo, Liber Paz, Lourenço Mutarelli, Maristela Ono, Paulo Reis, Vicente Pessôa, entre alguns outros. Por enquanto é só isso que posso dizer, mas se tudo der certo, tenha certeza que estaremos na banca mais próxima. Dentre as nossas outras novidades editoriais, em parceria com a Caderno Listrado, posso já adiantar o lançamento do livro “Malditos Designers” de Rômulo e, posteriormente, do livro “Em busca do paraíso perdido” do sociólogo Ângelo José da Silva.

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" Elige un trabajo que te guste y no tendrás que trabajar ni um día en tu vida" – eis uma frase de Confucio, recebida em um email da Glória Kirinus, que por mais clichê que possa parecer tem feito muito sentido para mim ultimamente. A ilustração acima retrata literalmente isso: colagens minhas que foram publicadas na edição #15 da revista IdeaFixa: “o impossível”. Mas o que talvez represente melhor meu entusiasmo é a oportunidade que consegui em ministrar algumas aulas esporádicas na disciplina “Linguagem Gráfica”, em auxílio ao professor José Marconi (agradeço pelo conviete e pela confiança), dentro da graduação em Design Gráfico na UFPR. Como é de se notar, esta é uma das raras fases da minha vida em que eu me reconheço feliz por um instante. E só posso esperar que esse instante perdure. Não sei bem pra onde estou caminhando atualmente, mas acho que as coisas estão mudando pra melhor, cada vez melhor. Abaixo, deixo um pequeno ensaio que tive que fazer ontem. Por enquanto é isso, nos vemos em breve.

“Um viés fenomenológico sobre a colaboração e o design enquanto processo”

Ensaio entregue à disciplina de Design Colaborativo | 07 de março de 2010

A concepção do termo “colaboração” me parece, em um sentido ontológico – isto é, com relação à sua natureza semântica em um contexto vigente –, inerente à postura marxista (especificamente a dialética marxista) ou a seus fragmentos remanescentes nas reflexões contemporâneas. Partindo-se da etimologia da palavra, nota-se o prefixo “co” – em conjunto – somado ao termo latim “labore” – trabalho, labuta – sugerindo a ação de se trabalhar em conjunto. O próprio pensador Karl Marx escreveu várias obras em colaboração com Friedrich Engels, aplicando a doutrina materialista ao método dialético, proveniente da filosofia de Hegel (não materialista, mas idealista). Essa dialética marxista, que se define pela ação de não mais pensar o mundo, mas transformá-lo, é um vestígio que se mostra, em uma análise preliminar, intrínseco ao que se entende por “colaborar” nos dias de hoje. Retomando a história, observa-se o mesmo fenômeno nas teorias críticas da Escola de Frankfurt. Trata-se de um grupo formado por filósofos e cientistas sociais que lecionavam no Instituto de Pesquisa Social de Frankfurt (Alemanha), fundado em 1929. Amparando-se no pensamento de Marx, este grupo procurou sintetizar suas reflexões sociais em práticas colaborativas, como no ensaio “Dialética do Esclarecimento” de Adorno e Horkheimer.

Longe de querer postular argumentos esquerdistas – argumentos aos quais, diga-se de passagem, considero demasiado ultrapassados –, procuro aqui estabelecer um panorama prospectivo a partir de uma retrospecção limitada não só ao contexto contemporâneo, mas sobretudo ao que me aparece como dado imediato ou, em outras palavras, fenomenológico. Coloco-me, deste modo, na posição de um possível leitor, pressupondo uma familiaridade prévia com a área de Design, que se depara com este ensaio como quem questiona suas próprias conjecturas empíricas. Voltando-se ao Design, não vejo outro modo de pensar “processo” senão como o resultado de um método. Entretanto, no que se refere às metodologias de Design, observo um constante compromisso racionalista com a funcionalidade e a eficácia. Não tenho conhecimento de nenhuma postura metodológica que não seja positivista e/ou pragmatista nessa área, levando-se em conta sua tradição acadêmica desde a Bauhaus. Tanto o modelo humanista quanto o norte-americano, assim como a doutrina marxista, me parecem fora de contexto por razões que aqui não caberiam descrever. Portanto, tomo a liberdade de destacar um episódio da História da Arte que (ainda) não possui ligação direta com a área do Design.

Alguns artistas se juntaram em Paris no início dos anos 1920 para configurar o que se chamaria, pouco tempo depois, de movimento Surrealista. Liderados por André Breton, os artistas compartilhavam as idéias de Freud e, não por acaso, de Marx (ver “A Estrela da Manhã: Surrealismo e Marxismo” de Michael Lowy). Fato é que várias experiências colaborativas de criação marcaram a paisagem surrealista, a começar com os “Les champs magnétiques”, textos elaborados em conjunto por André Breton e Phillipe Soupault em 1919. Apoiando-se nas técnicas freudianas de “associação livre” e “pensamento falado”, e com o intuito de descobrir fontes não-racionais de inspiração para a criatividade, surgia o método da “Escrita Automática”: procedimentos subjetivos que pretendiam atingir uma nova objetividade poética, realizados em sua maioria de maneira coletiva. Os surrealistas tentaram estender essa prática à pintura e à escultura, evitando ao máximo qualquer intervenção por parte do senso-crítico consciente e valorizando experiências práticas e momentâneas.

Atendo-se restritamente à técnica de “Escritura Automática” dos Surrealistas, arrisco-me a compará-la com o método fenomenológico de Gaston Bachelard descrito em seu livro “A Poética do Espaço”: “a filosofia da poesia [...] deve reconhecer que o ato poético não tem passado, pelo menos um passado próximo ao longo do qual pudéssemos acompanhar suas preparação e seu advento” (BACHELARD, Gaston. 1988). Embora os pensamentos de Bachelard estejam mais próximos aos de Jung do que aos de Freud, o filósofo aproximou-se do Surrealismo ao ingressar na crítica literária na década de 1940. À parte disso, arrisco-me novamente a dizer que o processo criativo descrito por Bachelard depende de uma interação colaborativa, fugindo à causalidade e se manifestando na repercussão: “o poeta não me confere o passado de sua imagem, e no entanto ela se enraíza imediatamente em mim” (BACHELARD, Gaston. 1988).

Assim sendo, minhas considerações sobre “colaboração” e “design enquanto processo” inevitavelmente vão de encontro à intencionalidade de uma possível metodologia fenomenológica aplicada ao Design, proposta essa que compõe o escopo de meu projeto de pesquisa neste programa de Mestrado em Design. Embora ainda haja um abismo entre minhas pesquisas e os resultados esperados, desconfio que a concepção de “colaboração” e “processo” (especificamente criativo) distancia-se daquilo que propõe as premissas metodológicas do Design, mantendo-se ainda, contudo, em suas finalidades.

Referência: BACHELARD, Gaston. A Poética do Espaço. São Paulo: Martins Fontes, 1988.

Aquele olhar registrado na foto é uma contradição sem fim. Como estas palavras que começam a saltar de meus dedos. O céu. Mande notícias quando esquecer. Posso criar ou destruir um sentimento a qualquer instante? Qualquer amor por qualquer pessoa? Entender... quando você bem. Como manipular as emoções e acreditar que as pessoas mudam. Um dia. Perdidamente apaixonado por aquela que me avisava o tempo todo que eu não deveria. Mesmo assim, ainda devo. É assim que deveria ter sido. Mas não foi.

Ditas, suas palavras propriamente foram. Tanto quanto (mal)ditos eram os sonâmbulos que por aqui estiveram antes de mim. Difícil é conseguir sair de casa sem saber o que me espera do outro lado. Mais um lado. Mais uma história. De amor, simples, ingênua, criada para ferir e romper com aquilo que. Sem se preocupar em novas respostas para velhas perguntas. Uma linda poesia interpretada apenas por aqueles que não mais vivem. Jamais seria revelada. Ao menos, não deveria. Quem é que ainda não sente o medo incessante da experiência já vivida? E da certeza de um fim novamente subentendido? Permanece, o sentido incerto. Como aquele olhar da primeira foto. Um segundo para durar uma vida inteira. Bom se fosse. Mas não.

Durante cinqüenta e nove segundos a imagem permanecia, como uma belíssima e eloqüente canção. Alcançar a substância do tempo, subtrair-se de sua lei, apreender a essência de uma realidade escondida no inconsciente. E recriada por mim mesmo. Ainda estava lá a velha parede. O velho jardim, as velhas andorinhas, a velha figura solitária. A figura sabia da minha presença naquele lugar à medida que eu avançava. Uma voz feminina. Meu nome. Ela havia mudado, mas conservava tudo aquilo que um dia provocava tanta. Contemplação. Não a mesma, melancolicamente mais suave, majestosa e leve. Vem aqui muitas vezes, Sophie? Nunca voltei desde então. Nem eu. O silêncio empurrava-me para perto dela. Notei lágrimas que dos seus olhos caíam. Estava sem nada mais, pouco a pouco, em todos estes miseráveis anos. Afinal, não deixavam de ser. O último observatório no qual se podia abraçar a própria vida num instante.

Toda vez que a amo, quando a amo, retorno a abandoná-la. A resultante imediata do amor não é senão uma espécie de instrumento óptico que nos faz discernir aquilo que, sem o ser amado, talvez não pudéssemos ver sozinhos. Mas nem por isso deixa de persistir. A história que trago aqui certamente não passa de uma invenção maliciosa, mas representa um pouco do vasto imaginário de um indivíduo (eu) a um coletivo (você), um dos sinais pelos quais se distingue o homem de uma vida que era, ou deveria ser, propriamente sua. Trata-se, primeiramente, de um contexto onde todos fogem do descanso e do sono, assaltando o próprio tempo e alimentando um grande e irremediável engano. Em outras palavras, correr, tropeçar e segurar o choro. Para não perder de vista o olhar glacial de um anjo, uma divindade.

Texto para um possível novo livro. Ilustração em colagem digital e aquarela, elaborada para a capa do livro "Amanhã. Com sorvete." de Assionara Souza. (quem viu, finge que não viu. Colocarei novamente após o lançamento do livro.)

cartaz Uma realidade já estabelecida, cujo objetivo ingênuo parece ter sido fixado de uma vez para sempre – eu –, encontrando-se subitamente na presença de outra muito distante e não menos absurda realidade – você – num contexto onde ambos se sentem fora do seu lugar – aqui –, irá por este simples fato escapar do seu objetivo ingênuo e perder a sua identidade. Diga adeus ao seu emprego, sua formação, seus compromissos, seus amigos e inimigos. Somos apenas eu e você agora. Não exatamente você, mas aquela menina linda ali do lado. Não exatamente eu, mas quem você quiser que eu seja. Não há uma terceira pessoa, exceto aquele ser repugnante a quem você dedicou todos os seus sentimentos e que está morto desde ontem. Você sabe disso desde hoje, estou te contando agora. Eu sei que você não vai com a minha cara. O que você não sabe é que eu pratico crimes desde a infância e passei boa parte da vida preso. Agora que você já sabe, vai me denunciar à polícia.

Contudo, posso adiantar que não restam provas que ainda não foram julgadas e condenadas no tribunal. Apenas o meu olhar obscuro que você sentirá toda noite antes de dormir e a possibilidade iminente de que não acordará no dia seguinte. À parte disso, saiba que sou um sujeito exemplar. Trabalhador honesto, católico fiel e, provavelmente, um ótimo pai. Então entenda que o verdadeiro sentido da tua vida desfaleceu quando você traiu o defunto ao se apaixonar por mim. Ainda não, mas daqui a pouco. Logo após eu te dizer que eu apanhava muito nas detenções. E que eu fui abusado sexualmente e que, no almoço, me alimentava apenas com o ódio que eu sentia do ser humano. Pronto, agora você pode confessar que me ama. Devido ao desvio através do qual é relativo, irá passar da falsidade absoluta para um novo absoluto que é verdadeiro e poético: eu e você faremos amor aqui e agora. Uma completa transmutação seguida de um puro ato de amor são necessariamente produzidos sempre que os fatos fornecidos proporcionem condições contraditórias e nada favoráveis.

Você diz que é por vingança, mas eu sei que o medo e o perigo te excitam. Por isso você gostava tanto daquele imbecil. Só entenda que eu não suporto assassinas. Sei que você ainda não é – saiba que eu também não –, mas não adianta insistir, jamais serei capaz de sanar o teu imenso desejo de morrer agora. Se eu te amasse, talvez. O que importa é que quando o mais provável deixa de existir, o improvável entra em cena: você deixará de ser o que de fato é para assumir aquilo que decidiu se tornar. Matará muita gente, mas se lembrará apenas de cinco pessoas, as quais serão assassinadas em um único dia – seus pais, sua irmã, sua melhor amiga e o seu futuro filho. Antes do suicídio, tentará fugir do país, mudará seu nome e transará com muitos outros criminosos, até ser descoberta e conseqüentemente incriminada. Sua frieza será assustadora. Mas não esqueça que ainda te restam dezesseis anos de vida. Por ora, deixarei alguns conselhos em troca da fornicação de agora pouco.

Aprenda a sorrir de graça e ninguém desconfiará de você. Comece a caminhar mais na rua, o melhor dos esconderijos. Olhe sempre para o céu, mesmo em dias de chuva, como se fosse a última vez. Não procure por novos amigos, eles é que vão encontrar você. Os mais idiotas são sempre os melhores. Faça sexo mesmo quando não estiver com vontade, pois nas poucas ocasiões que ficará excitada dificilmente haverá alguém disposto. Escolha uma igreja bonita e cheia de estátuas e comece a freqüentar as missas de domingo. Encare os adolescentes como rapazes bons de cama e cheios de energia, não como criaturas pervertidas e imaturas que despejam esperma em qualquer canto. Dê atenção aos idosos sem precisar respirar aquele hálito podre. Pare de pensar em fugir antes de no mínimo saber como e para onde. Acredite na solidariedade e no amor ao próximo, segurando a respiração por trinta segundos antes de decidir matar certas pessoas. Leia os romances de Kundera para que não seja tarde demais. Escute a música de Erik Satie, de preferência em Paris, e não cometa o erro de ler filosofia - contente-se com a vida que ainda te resta. Pare de beber, pare de fumar e durma mais cedo para acordar mais cedo. Coma mais alface, dizem que faz bem para o intestino. Quando receber um elogio, evite pensamentos absurdos e agradeça, simplesmente. Nunca ria de si mesma e quando achar algo engraçado, guarde o riso para si. Marque uma consulta para ver o que você tem na garganta, que te faz falar tão alto. Compre um óculos escuro, mesmo que seja só para ficar olhando a tarde passar. Pense cuidadosamente em um novo nome, quanto antes melhor e, por fim, o mais importante: não olhe pela janela se você ainda não sabe enxergar o que há por detrás dela.

Agora espere só mais um minuto antes de dizer até logo e nunca mais olhar para trás. Compreenda, nesse meio-tempo, que o energúmeno do seu marido morreu por tua causa, tentando negociar comigo o dinheiro que você ainda me deve. Não fui eu quem o matou, não sou assassino, mas heroína custa caro e é você quem deveria estar esticada no chão. Não se preocupe, não vou mais te procurar. Só te peço para que tente controlar a raiva quando decidir matar o nosso futuro filho. E antes disso acontecer, ame-o com todo o coração que uma mulher entrega a um homem quando ele nasce.

* conto escrito para o pretérito presente (tentando ressucitá-lo) e ilustração feita com grafite e colagem digital.

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*primeiro conto e primeira ilustração de 2010 (grafite, aquarela e colagem).

Voltemos àquela tarde de outono. Durante o verão de 2454, Curitiba não mais conhecia um dia sem chuva e eu trazia em meus olhos pálidos a apatia da loucura e, sob a pele alheia, o azedume de calçadas rachadas e de fios de vento que cortavam as pessoas feito estilete. O olhar de Sofia estava em todos os lugares. Tão bonita que eu tentava evitar, sem saber que ela também me via. E me evitava também. Eu só queria descansar, Sofia estava tão perdida quanto eu, o vento corria forte pelas ruas na mesma direção que caminhávamos juntos para o trabalho. Não que eu ainda me sentisse culpado, só não entendia como lidar com aquela presença, no mínimo, esquisita. O motivo era simples: ela estava morta e, ao que tudo indica, fui eu quem a matou.

Confessei o crime várias vezes à polícia, mas de tão falso que parecia ainda não me prenderam. Sofia já estava de partida, segurava levemente a minha mão pois não havia mais nenhuma outra sobre a qual se apoiar. Eu não devia ter dito que não tinha certeza, muito menos ela. O erro não foi meu, meus dedos apenas responderam ao seu olhar trêmulo e mofado. Depois do som metálico do disparo, baixei os olhos tentando registrar na memória aquele sorriso definitivo e eterno. Mas o que ficou mesmo foi o cheiro de sangue podre em minhas narinas. Por isso passei a caminhar mais na rua, o vento disfarçava o cheiro. O problema era o olhar de Sofia, em pontos estratégicos, especificamente naquela tarde de outono. Tentando evitá-lo, levantei a cabeça e contemplei o céu: a lua quase se encostava ao sol, Júpiter e Saturno estavam demasiado próximos. Não parecia muito agradável e, sem compreender o que se passava, permaneci imóvel como se estivesse pregado no horizonte minimalista daquela avenida.

Foi então que eu notei o corpo de Sofia visível apenas da cintura para cima, debruçada em uma janela lá em cima, como uma marionete. O cheiro de pele morta era mais forte que a ventania que, por sua vez, abafava os gritos de Sofia. A paisagem de baixo para cima me causava vertigem, eu não conseguia sair do lugar e senti minha pele se soltando em carne viva. Realmente ventava muito. Realmente eu estava pregado no chão. Meus ossos esmigalharam-se sob o meu próprio peso. Respirei fundo e senti milhares de agulhas perfurando meus pulmões. De repente um carro tentou frear atrás de mim, sem êxito.

Não deu tempo de ver os olhos dela. Não deu tempo de ela me dizer o que queria. Mas minhas lembranças eram tantas que imediatamente entendi e aceitei, ao passo que Sofia desaparecia da janela no exato instante em que o rapaz que dirigia segurou minha mão. Sorri pela última vez e sussurrei para ele, enquanto eu ainda tinha língua: cuide de quem você ama, que um dia acaba. Cuide de quem você ama, que um dia ela parte. Cuide de quem você ama, que um dia esse dia chega. Perdoar é divino e Sofia é uma das poucas deusas que ainda caminham sobre a terra.

destino é quando o peso irrisório do acaso é facilmente carregado pelo vento.

O título foi emprestado do 8º capítulo da primeira parte do livro “A Cortina” de Milan Kundera, mas por enquanto é provisório. Refere-se neste caso à uma pequena tentativa coletiva de criação literária, iniciada por Ivan Mizanzuk e continuado por mim, Matheus Mantovai e Tassiana Kohl, sendo o texto ainda inacabado. Segue abaixo o resultado deste singelo experimento:

hipertexto

Por ora, é apenas isso. Para não perder o ensejo, deixo aqui também um recorte da novela gráfica de Chris Ware, Jimmy Corrigan - the smartest kid on earth, uma excelente leitura de criado-mudo. Fica a dica.

“Na vida de algumas pessoas há momentos – aliás dias, semanas e até anos a fio – tomados por uma sensação palpável de que toda atividade é inútil. Talvez ao despertar numa manhã ensolarada e promissora sintamos nossa criança interior reanimar-se, um sentimento logo dissipado pela mentira mascarada da vida adulta nos devolvendo o olhar no espelho do banheiro. Ou quem sabe tenham acabado de nos informar que não somos, no fim das contas, o companheiro para a vida toda que tinham pensado que éramos, e tenham nos pedido o favor de não mais visitar, telefonar ou dividir os lençóis, e também para, na primeira oportunidade, darmos uma passada a fim de recolhermos nossos pertences pessoais. Ou quem sabe o avô pelo qual sempre sentimos amor no grau mais puro, ele que nos mostrou que a vida podia ser tolerável e alegre apenas dizendo as palavras certas, ou contando a história certa, ou fazendo um elogio certeiro, tenha caído naquele estado vital em que só a menor porção de vida resta em seu corpo para fins de subsistência, porventura até mesmo transformando ou invertendo cruelmente aquela personalidade outrora generosa e iluminada num doppelgänger rancoroso e vingativo que talvez nem sequer nos reconheça. Ou quem sabe você tenha simplesmente sentado nu na poltrona da sala no meio da noite e, de forma um tanto inesperada, sido assaltado pela consciência horrível e angustiante de tudo que o conduziu à situação presente, a impotência de sua infância, as amizades perdidas, os encontros nunca concretizados, os corações partidos, e tenha implorado a quem quer que ouvisse pôr um fim a tudo isso, uma solução, um encerramento do programa antes que avançasse nem mais um minuto sequer.

Em tempos assim, e em tantos outros não descritos, muitos de nós buscam uma forma de espetáculo que possa fornecer distração ou consolo. Podemos ir ao cinema da esquina, ligar o televisor ou comer um bolo na esperança de encontrar algo que nos estimule ou que, de preferência, e de forma bem mais rara, proporcione uma ressonância solidária com nosso estado de espírito, seja de maneira específica ou por princípio filosófico geral. Em todo caso, o sucesso da empreitada depende sobretudo da qualidade do esquete, sitcom ou guloseima consumida e de seus autores terem alguma consideração com esse aspecto da vida ou quererem apenas lucrar com ele. No segundo caso, é provável que o componente principal da experiência possa ser identificado como uma intenção fundamental do autor de distrair ou divertir; no primeiro, um desejo do autor de que todo mundo se sinta tão mal quanto ele. Assim, um indivíduo pensante seria levado a concluir que, no geral, a procura de empatia emocional na arte é uma busca temerária relegada aos deficientes intelectuais e aos feios, pois esses não têm mais com que se ocupar. Além disso, é visualmente desagradável ficar se lamentando, e esses ‘períodos desafortunados’ acabam passando sozinhos, e, se não passarem, o suicídio é sempre uma opção, para o alívio do resto de nós.

A maioria dos compradores deste livro, porém, são decerto pessoas dinâmicas, atraentes e sexualmente confiantes para quem a dor é mera abstração ou, nos piores casos, um inconveniente tratável com medicamentos caros. Por conseguinte, esperam encontrar algo que os atiçará ou alegrará por um instante, lhes incrementará o ‘visual’ de acordo com a moda ou os tornará mais ‘in’, e com certeza fizeram a escolha certa, pois a mídia das histórias em quadrinhos aqui adotada jamais expressará nada a não ser os sentimentos mais miseráveis e vazios. Com efeito, o livro nem precisa ser lido, bastante expô-lo como símbolo de exuberância juvenil, como um automóvel chamativo ou música sulista norte-americana executada por um aristocrata.”

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Em todo primeiro dia do ano é inevitável a reflexão sobre quem eu sou hoje, quem eu poderia ter sido e quem eu gostaria de ser. Este ano não foi diferente, mas com a agradável companhia de um amigo relativamente recente. Conheci Ivan no final de 2008 em uma palestra do Mutarelli e, de lá pra cá, muitas coisas aconteceram conosco, cruzando nossos caminhos algumas vezes. É engraçado como conhecemos os amigos. Quase sempre é muito improvável. Ivan era um jovem e talentoso professor e eu era o aluno rebelde. Com o tempo, passei a admirá-lo cada vez mais na medida em que ele me ensinava com exímia habilidade e assim compartilhávamos algumas idéias. O que realmente importa nessa história foi quando eu consegui enxergar que não é a verdade que deveria ser ensinada, mas sim as virtudes. Professores que ensinam a verdade são substituíveis por qualquer um que também a conheça. Por outro lado, ensinar alguém a gostar daquilo que se pretende conhecer é aquilo que torna um professor único.

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Quando eu entrei na faculdade, muito tempo se passou em apenas alguns anos, algo que acabou fazendo de 2009 um ano demasiado efêmero. Não sei exatamente o porquê, mas tenho a impressão de que o ano durou quase um mês e desconfio que não seja apenas eu que senti isso. Por que as pessoas comemoram tanto um ano que ainda não aconteceu? Pra mim faz mais sentido dizer feliz ano velho do que feliz ano novo. No entanto, parece que o ano passado realmente passou despercebido. Vivenciei ocasiões muito interessantes na faculdade que transformaram minha noção de tempo. Acho que a coisa mais importante que há na faculdade é o processo que eu chamo de “cair a ficha”. Você aprende que um diploma é praticamente inútil, que qualquer tipo de relacionamento possui um prazo de validade, que as verdadeiras conquistas dependem apenas de você, que um dia seus pais não estarão mais ali e que quando este dia chegar será apenas você contra o mundo, tentando pelo menos se tornar algo parecido com aquilo que seus pais foram. E assim o tempo se torna mais traiçoeiro, escorregando entre os nossos dedos. Neste ponto, questiono-me se é o medo ou a ambição o que move o homem. No início da faculdade, tive a oportunidade de conhecer algumas pessoas que caminharam comigo por este trajeto. Dos que ainda permanecem bem próximos, pelo menos até o ano passado, estão meus amigos Rafael e Matheus. Passamos por uma fascinante tempestade criativa durante estes anos, uma revolta explícita contra a postura dos tais “filisteus”, “standard people”, “statu quo”. Fomos maus alunos e mesmo assim tínhamos as melhores notas. Embora sejam dias que hoje deveriam ser esquecidos, foram inesquecíveis enquanto duraram. Esperanças, ideologias, receios… tentativas de enxergar o acaso como um destino. E hoje uma amizade construída justamente sobre o contraste de nossas ambições: minha aversão à vulgaridade contra a aversão deles à academia. A única certeza que perdura é que eu me tornei a soma de cada um deles. Eu não abriria mão de nenhum daqueles dias vividos e sinceramente espero que haja muitos outros pela frente.

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Então eu penso no tempo que me tomou estes vinte e dois anos, as ocupações pessoais, profissionais e informais, as preocupações cotidianas e a falta de sono. Não sei mais se quero saber de tudo aquilo que eu queria tanto conhecer um dia. Analiso minha vida e começo a pensar que ela não é tão vasta para todos os meus anseios. Lembro-me que minha principal motivação sempre foi a arte. Hoje eu penso que a arte, em seu sentido mais amplo, deve ser vista como algo secundário, que alimenta a vida, sem atrapalhá-la. Creio que todos devem praticá-la enquanto não se está preparado para coisas mais importantes. No fim são apenas reminiscências, jamais obras definitivas. Quanto às “coisas mais importantes”, relativas à desonestidade e ao que existe de não digno, ainda acredito que não é preciso aprendê-las, mas tê-las apreendidas. Não é preciso, porém, deixar a arte de lado. O conformismo de minhas palavras é apenas aparente na medida em que há muita arte no cotidiano a ser contemplada por olhos sensíveis: histórias engraçadas, histórias tristes, edificantes, distraídas.

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Embora não haja mais o tal encanto da juventude, creio em um certo encanto da vida adulta. Ultimamente tenho tentado investigar melhor acerca desta profunda mudança que estou vivendo. Cada instante mostra-me a infinidade de meu passado e, ao mesmo tempo, a fragilidade de meu presente. Por que eu parei de beber e quando eu comecei a fumar tanto? Não tenho certeza. Por que eu parei de escrever e desenhar quando eu mais precisava disso? Já não sei exatamente qual é o meu objetivo. Entretanto, vejo novas expectativas florescendo às cegas, como se houvesse um motivo ainda oculto para tudo o que está acontecendo. Momentos emocionantes ressurgem ao acaso, mágoas e decepções se apagam aos poucos e alguém que eu nunca imaginei está apostando em mim. Sinto que estou indo em direção à uma fresta de esperança no final do corredor, que não é para o lado de fora. Por isso continuarei na academia, agora estudando para lecionar pois, mais do que nunca, sinto que é a melhor coisa que eu sei fazer. Este é o plano para este ano, que se soma a alguns cursos de literatura para estimular a mente, muito trabalho de design para lubrificar os olhos, alguns desenhos para regular o traço e, se sobrar tempo e espaço, um pouco de ócio coletivo ou solitário para aquecer o espírito. Evidentemente, serão apenas tentativas. Com minha velha pistola em punho, estou começando novamente a disparar ao acaso com a sensação de que finalmente haverá alguém à altura das balas.

colagem04 * colagens feitas no vácuo entre natal e ano novo de 2009.

Nunca me arrisquei falar o que eu penso sobre o natal. Não vim de uma cidade do interior, não tenho nostalgia ou qualquer coisa do gênero. Meu aniversário é no dia seguinte e, perdoem-me os cristãos, isso é mais importante pra mim. E disso sim tenho boas lembranças. Mas sobre o natal, as pessoas que eu conheço também nunca mostraram muita simpatia: as insuportáveis músicas natalinas, crianças berrando feito bezerros, preguiça de pegar fila nos shoppings, lixo de entretenimento na TV, cansaço de tanto ter que sorrir. Já dizia Drummond: “Alguém observou que cada vez mais o ano se compõe de 10 meses; imperfeitamente embora, o resto é Natal. É possível que, com o tempo, essa divisão se inverta: 10 meses de Natal e 2 meses de ano vulgarmente dito.”

Contudo, arrisco-me a dizer que este pensamento mudou quando eu visitei minha família ontem. Todo ano eles me esperam com muita alegria. À princípio, me senti um cretino insensível. Mas logo em seguida tentei entender como simplesmente estar ali me aliviava tanto. Afinal, é só mais um natal, dentre mais uns 30 que passaremos juntos. Pois é. Talvez seja isso, uma simples tradição cultural que tenta disfarçar, por um instante, a brevidade da vida. Há pouco tempo atrás eu brincava com os meus primos no quintal da casa da minha tia em São Paulo. Hoje é mais silencioso, somente com meus pais e minha irmã, que por sinal cresceu muito depressa. É o primeiro natal que minha avó não está mais conosco. Então volto ao dilema de que ser é aquilo que se perde. Porque na verdade era bom ter todas aquelas pessoas por perto. Se eu amadureci de lá pra cá, de alguma forma eu devo isso à minha família. Se eu consegui terminar uma faculdade e me esforcei tanto para entrar no mestrado, é porque havia uma singela preocupação familiar que insistia em não me deixar desistir de minhas capacidades. Imagino como é ter um filho pessimista e mal-humorado como eu. Não deve ser muito legal. E por menor que fosse esse esforço dos meus pais, isso fazia com que meus erros e tentativas fracassadas não fossem tão traumatizantes. Vejo hoje que minha família tem tentado desde sempre me impedir de desistir das coisas. E pela primeira vez, vejo o natal como um momento de gratidão. Não há nada de nostalgia, esperança, paz e solidariedade. Gratidão, só isso. E pra mim isso significa mais do que qualquer outra coisa.

Este é um vídeo do Bon Iver, feito pelos franceses da La Blogotheque. Acho que ilustra bem a tal gratidão a qual me refiro.

por marcos beccari 0 comentários | edit post

(clique AQUI para baixar o artigo na íntegra)

Este artigo foi publicado no III Simpósio Nacional de Tecnologia e Sociedade - desafios para a transformação social, no Grupo Temático 14 – “Arte, Tecnologia e Sociedade” e explora os temas “Blogsfera”, “Cultura Digital” e “Comportamento”. Confira abaixo:

Resumo: Neste estudo, direcionado à aproximação do objeto, é estabelecido como objetivo analisar o comportamento de uma pessoa que mantém ou freqüenta blogs, ou seja, diários virtuais que se proliferam na internet como ferramentas de uma narrativa híbrida, tendo como ponto de partida o contexto social e tecnológico no qual estes estão inseridos. O caráter deste contexto revela-se composto, por um lado, pela livre expressão e interpretação das informações e, por outro, pelas incertezas decorrentes das mesmas. Para tanto, identificou-se as principais características e peculiaridades que envolvem a blogsfera – um meio que representa, simultaneamente, a individualidade e a coletividade, dimensões presentes no imaginário da sociedade pós-moderna. Por fim, considerou-se a blogsfera como sendo um reflexo comportamental da cultura contemporânea e da individualização dentro da sociedade como um todo, cuja principal pretensão é o elogio à subjetividade.

Palavras-Chave: Blogsfera, Cultura Digital, Comportamento.

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O primeiro artigo que disponibilizarei aqui foi publicado no III Simpósio Nacional de Tecnologia e Sociedade - desafios para a transformação social, no Grupo Temático 15 – “Visões sobre o mundo do trabalho: literatura e comunicação” e se trata de um breve estudo acerca do “Mito dos Olhos Vendados” de Claude Shannon, estabelendo uma analogia entre Teoria Matemática da Comunicação e Fenomenologia.

Resumo: Um dos maiores debates em torno da Teoria da Comunicação se refere à sua histórica multiplicidade filosófica. Para estabelecer uma discussão a esse respeito, escolheu-se analisar o “Mito dos Olhos Vendados” na obra de Claude Shannon (1916- 2001). Para Shannon, a Fenomenologia é limitada ao abordar apenas as experiências reflexiva e sensível e suas possíveis ligações. O autor utiliza a decisão para ilustrar de que modo a Fenomenologia pode sustentar a Filosofia, enquanto esta diz respeito à uma reflexão existencial. O presente trabalho tem o objetivo de demonstrar e contrapor, quando possível, o esboço filosófico que Claude Shannon registrou em sua hipótese do “Mito dos Olhos Vendados” e suas possíveis repercussões literárias. Entre as principais conclusões, destaca-se a proposta de um método particular,
baseado no conceito de entropia da consciência, com ênfase na concepção da percepção em Sartre e Heidegger.

Palavras-chave: Teoria da Informação, Mito dos Olhos Vendados, Fenomenologia.

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Parafraseando meu amigo Vicente Pessôa (em Resposta a mim mesmo), este texto pode ser dirigido a muitas pessoas. A princípio, porém, trata-se de um esclarecimento a mim mesmo, uma satisfação que dou às pessoas que me escutam e àquelas que realmente significam algo para mim. Antes de mais nada, parte-se do princípio de que, em um contexto onde o excesso de informação já faz parte da paisagem, a verdade é algo inexistente. Ninguém é capaz de entendê-la, quiçá repassá-la. As pessoas conseguem mentir sem se dar conta de, apenas recebem informações e as repassam conforme uma reles interpretação. Por isso, ainda me apropriando do discurso do Vicente, decidi há um certo tempo ser o mais sincero possível, ao menos comigo mesmo, e isso inclui não deixar que a ignorância seja louvada, quando puder impedí-la.

1desenho[um de meus primeiros desenhos, feito em 1999]

Fato é que eu vivo me expondo aqui e ali e em alguns outros lugares, o que me impede de guardar segredos. Sou formado em design gráfico, faço mestrado na área e trabalho com ilustração na maior parte do tempo. Quando eu fiz meu primeiro curso de desenho, aos 12 anos em São Paulo, aprendi que a melhor maneira de aprender a desenhar é copiando outros desenhos. Depois de alguns meses de curso, com alguns macetes que o professor me ensinava, consegui fazer meus próprios desenhos, deixando aos poucos as referências de lado. Em paralelo a isso, meu pai fazia questão de me ensinar tudo relacionado à propriedade intelectual – ele trabalhava com isso na receita federal. Logo quando entrei na faculdade, comecei a estudar bastante (por conta própria) história da arte, filosofia e literatura. O resultado disso tudo foi a idéia de um projeto chamado “literatura emergencial”, em 2007.

Era algo que me parecia pretensioso, de certo modo anarquista e contemporâneo, que propunha a apropriação pela ressignificação. Embora isso já tenha sido feito na área de artes visuais (pop art, dadaísmo, street-art, etc), na literatura era uma idéia que nunca fora arriscada (até onde eu saiba). Na prática, tratava-se de uma proposta de juntar partes de obras já existentes para construir uma nova obra, um tipo de “hipertexto manipulado” (minha principal inspiração foi “Arte e Mídia: Aproximações e Distinções” de Arlindo Machado). Como forma de exercício, em 2007 comecei recortando textos de pessoas que, até então, não identificavam seus verdadeiros nomes na internet. Ingenuamente ou não, eu publicava tais experimentos em sites pessoais sem pedir autorização aos autores e não indicava seus respectivos créditos. Evidentemente, tais escritores logo se manifestaram contra minhas atitudes. Embora fossem poucas as ocasiões que me permitiram um diálogo – eu só o fazia com aqueles que entravam diretamente em contato comigo –, sinceramente eu declaro desde já: copiei de fato, não tiro a razão deles, assumo meus atos sempre que necessário e estarei sempre disposto a tirar os textos do ar ou atribuir os devidos créditos caso isso me seja requisitado.

Longe de querer me justificar, vou contar o resto da história. Tentei levar este projeto adiante e no final de 2008 consegui incluí-lo no programa BITEC (financiado pelo IEL e CNPq), na forma de um projeto de pesquisa intitulado Arte Emergencial. Neste ponto, eu já tinha uma idéia mais concreta sobre minhas pretensões e meus limites, algo que partia do contexto da própria internet: você escreve, filma ou elabora uma imagem e as pessoas acrescentam comentários que podem contribuir ou piorar o seu trabalho - desde propagandas automáticas de dieta ou pornografia, gente que diz o que pensa e assina como “anônimo”, até tentativas inusitadas de plágio/cópia sob uma desculpa como a minha. Eu realmente acreditava nessa idéia, considerava-a inovadora, como uma postura vanguardista e corajosa, planejando diversos tipos de desdobramentos (veja o artigo abaixo).

Porém, no meio do projeto eu aluguei, por sugestão de um professor, o filme “A Onda” (Die Welle). É uma versão alemã feita em 2008 do filme americano “The Wave” (1981) que explora a questão da responsabilidade envolvida em atitudes puramente ideológicas. É curioso como um filme pode influenciar, de modo tão imediato, a vida das pessoas. Parafraseando agora o meu professor Liber, o filme me ajudou finalmente a reconhecer um fato demasiado simples, mas que até então permanecia opaco para mim: tudo o que dizemos e escrevemos, isto é, todo processo de comunicação, será interpretado por alguém e sempre haverá consequências. Algumas vezes irrelevantes, outras divertidas, outras desastrosas.

Desde então, digo sinceramente que me arrependi disso e que eu não tenho mais feito isso há um bom tempo. Não espero que os escritores plageados, ou qualquer um que seja, entendam tudo isso, mas acho necessário dizer que, de um jeito ou de outro, eles contribuíram muito com minhas poucas habilidades na escrita, tal qual os ilustradores que eu copiava aos 12 anos de idade, em minhas habilidades no desenho. Assim, peço desculpas e lhes agradeço ao mesmo tempo, sabendo que talvez eu tenha demorado muito para tê-lo feito. No final, vejo que essa história começou por ser pequena, mas logo cresceu rapidamente, até se tornar um longo registro de pequenos equívocos e acertos de duvidosa importância. Assim pensei antes de apagá-la por completo ou escrever este texto. O que me levou à segunda opção foi justamente a minha despreocupação inicial, antes de tudo isso, que hoje eu reconheço nitidamente como uma tentativa imatura de retocar a maquiagem, corrigir os erros, reorganizar a ordem dos fatos. Deste modo, penso que qualquer acontecimento corre o risco de banalizar-se, mas como um fato cujo próprio conteúdo é importante, sua existência atesta uma virtualidade permanente e que não pode ser passada em branco.

mais sobre Arte Emergencial: projeto arte emergencial | manifesto | frases emergenciais | expectativas | estudo sobre Amálio Pinheiro | estudo sobre Arlindo Machado | Copyleft vs Copyright | estudo sobre a Filosofia da Arte | breve histórico da Arte Ocidental | Artigo “Blogs: o reflexo das incertezas coletivas”

ideologias/justificativas: sobre não ser quem se é | propriedade ou procedência? | constipações esquecidas | para constar | o hoje é perecível. o ontem, eterno. | ready-made de Vicente Pessôa | retomando o tempo perdido |

acusações: mapa d’água (roger dörl) | diferença nenhuma (roger dörl) | vizionario | cada qual (insone)

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